VIII Seminário de Estágio da Licenciatura em Educação do Campo: “A escola do campo na prática: políticas públicas e diálogos locais”

No dia 18 de janeiro de 2020 foi realizado no Campus I da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), o VIII Seminário de Estágio da Licenciatura em Educação do Campo (LEC). Com o tema "A escola do campo na prática: políticas públicas e diálogos locais", o evento promoveu reflexões sobre o estágio curricular supervisionado da Licenciatura em Educação Campo, nas áreas da Ciências da Natureza e Linguagens e Códigos, a partir dos relatos práticos e da participação da comunidade escolar e científica.

Por Henrique Sena Carneiro e Liliane Avelino Caldeira.

Relatores apresentando síntese. Fonte: arquivo pessoal dos autores
Relatores apresentando síntese. Fonte: arquivo pessoal dos autores

O VIII Seminário de Estágio da LEC foi estruturado da seguinte forma: os estudantes foram organizados em grupos de trabalho com diferentes funções: apresentadores, relatores e questionadores. Os debatedores foram professores convidados de ambas as áreas do conhecimento, em atividade em escolas de educação básica e na universidade. Em cada grupo, reunidos em salas diferentes, ocorreram apresentações individuais dos discentes com suas experiências vivenciadas no estágio curricular supervisionado e debates em torno dessas práticas pedagógicas.

Os debatedores teceram considerações acerca dos trabalhos apresentados com foco em suas áreas de conhecimento em uma perspectiva interdisciplinar e contextualizada. Em cada grupo de trabalho havia dois relatores e dois questionadores de ambas as áreas do conhecimento; enquanto os relatores tinham a função de registrar os principais pontos das apresentações, os questionadores tinham a função de indagar os pontos que não ficaram claros nas explicações.

No segundo momento, houve a síntese das observações com os principais pontos em comum levantados pelos relatores de cada grupo. Eles sintetizaram as principais experiências e as socializaram com todos os participantes do evento em uma apresentação, na qual dois estudantes de ambas as áreas do conhecimento, Henrique Sena Carneiro (CN) e Liliane Avelino Caldeira (LC), expuseram os resultados obtidos.

imagem de Érica Justino. Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2634711549898481&set=pcb.2634711986565104&type=3&theater
imagem de Érica Justino. Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2634711549898481&set=pcb.2634711986565104&type=3&theater

Já no terceiro momento ocorreu uma palestra seguida de um debate com a professora Erica Justino que ela falou sobre o tema do A escola do campo na prática: políticas públicas e diálogos locais seminário a fim de enriquecer o momento trazendo seu olhar de educadora e pesquisadora das escolas do campo.

Sobre as reflexões e vivências possibilitadas, destacamos a importância do fortalecimento de nossas práticas pedagógicas enquanto futuros educadores. Para isso, se torna evidente a necessidade de entendermos aos variados contextos em que poderemos atuar e moldar nossas metodologias em diálogo com a realidade. O estágio, segundo Pimenta e Lima (2012)[1], além de construir um campo de conhecimentos que superam a sua tradicional redução a uma atividade simples de prática instrumental, é também, entre outras coisas, uma atividade de pesquisa.

Analisando os contextos que foram descritos nas apresentações do seminário, destacamos a receptividade da comunidade escolar e as experiências vivenciadas como pontos positivos. Discutimos sobre o que seria uma escola do campo, já que dentre as escolas onde os estágios foram realizados apenas uma era institucionalmente reconhecida como tal. Com isso destacamos as questões burocráticas envoltas nesse processo de reconhecimento, pois a maior parte dos estudantes das escolas onde foram realizados os estágios são oriundas do campo e as práticas educacionais também forma direcionadas aos estudantes do campo.

Pensando nessa questão das práticas, os estagiários também abordaram a forma como o livro didático foi utilizado pelos professores observados. Foram relatados casos de certa dependência do livro sem haver uma abordagem significativa. Na maioria das vezes o trabalho em torno do livro era tido como um problema, sem considerar que muitas das vezes o único instrumento que o professor possui é o livro didático. Concluímos que o problema não é o livro didático em si o maior problema, mas sim a maneira como o professor faz uso dos seus conteúdos.

Outro ponto relevante foi o respeito do estagiário com a metodologia utilizada pelo professor em sala de aula. Notamos pelos relatos que o estagiário normalmente reconhece o espaço como pertencente aos estudantes, à comunidade, sob a tutela do professor e age com muito respeito a toda essa estrutura. Neste contexto, refletimos sobre as críticas existentes sobre o planejamento do professor e destacamos que deve haver uma parceria entre estagiário e professor para um bom aproveitamento no processo de ensino aprendizagem.

Na maioria das observações relatadas pelos estagiários, as aulas foram dialógicas e contextualizadas, uma vez que os professores conseguiam trazer elementos da realidade para suas aulas. No entanto, não foram interdisciplinares, pois os professores possuíam dificuldades em fazer ligações entre as disciplinas.

Nas observações das aulas de literatura foi perceptível a presença de conteúdos literários, porém, na maioria dos casos não houve uma abordagem significativa. Também foi percebida uma grande deficiência na leitura e escrita dos estudantes, o que reforça a precariedade no processo de alfabetização e letramento no ensino brasileiro. Logo, trabalhar práticas de leitura de texto literário e gêneros textuais contextualizados é um meio para melhorar o letramento reflexivo e crítico.

Outra realidade que também foi percebida foi a falta de envolvimento dos pais na vida escolar. Percebe-se que a escola não tem se tornado um espaço que a comunidade local vê como algo aberto e atrativo, levando-os a um distanciamento.

Pensando na abordagem dialógica e com o auxílio dos levantamentos preliminares da realidade realizados nos estágios, houve uma facilidade de relacionar os conteúdos apreendidos no tempo universidade com as práticas observacionais do tempo comunidade afim de culminar no tema gerador, como preconiza Freire (1987)[2]. Logo a investigação do tema gerador "(...) se realiza por meio de uma metodologia conscientizada, além de nos possibilitar a sua apreensão, insere ou começa a inserir os homens numa forma crítica de pensarem o mundo" (FREIRE, 1987, p. 55).

Seguindo na perspectiva de partir de um tema ou problemática local na busca de uma educação transformadora, foi discutido o uso das falas ou situações significativas levantadas e a dificuldade de alguns dos estudantes em identificá-las. Trazer situações reais para uma intervenção fortalece os conceitos da educação do campo e a identidade dos estudantes enquanto campesinos que são. Nessa perspectiva, alguns estudantes trouxeram propostas de regência visando abordar essas temáticas de maneira contextualizada, dialógica e interdisciplinar.

O seminário de estágio foi enriquecedor, pois proporcionou a todos um momento de aprendizado por meio de exposição de ideias, didáticas e metodologias. Os estagiários promoveram uma compreensão de como trabalhar em uma escola do campo ainda está vinculado ao modelo tradicional de ensino, o que é preciso mudar. Foram debatidos, também, os desafios a serem enfrentados por nós, futuros educadores do campo, tendo em vista as necessidades e limitações atuais, assim como a educação de uma forma geral.


[1] PIMENTA, S. G.; LIMA, M. S. L. Estágio e Docência. 7ª ed. São Paulo: Cortez, 2012.

[2] FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 17ª ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1987. 184p.