RESIDÊNCIA PEDAGÓGICA NA ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA DE VEREDINHA

Foi perceptível que muitas pessoas nunca tinham ouvido falar em agroecologia, mas possuem a consciência da relação humanizada com a natureza. Escolher a Agroecologia como centralidade do RP na Escola Família Agrícola de Veredinha foi uma oportunidade única para problematizar a realidade com legitimidade, pois estávamos envolvidos com as pessoas que diariamente vivenciam os desafios do semiárido. A Agroecologia é a esperança de vida no semiárido e a monocultura é a morte.

Por Neltinha Oliveira¹

Foto do arquivo particular da autora: visão do jardim da EFAV
Foto do arquivo particular da autora: visão do jardim da EFAV

Para iniciarmos a nossa prosa pedagógica, é importante sabermos quem é quem. Então, vamos conhecer em breves linhas a EFAV - Escola Família Agrícola de Veredinha. Trata-se de uma instituição de ensino localizada no município de Veredinha, na comunidade rural de Gameleira. Possui caráter territorial (Alto e Médio Jequitinhonha) e oferece o Curso Técnico em Agropecuária integrado ao Ensino Médio a partir da Pedagogia da Alternância, atendendo jovens de mais de quarenta comunidades rurais. Iniciou seu funcionamento no ano de 2011 e a sua gestão é realizada pela Associação Comunitária de Desenvolvimento Educacional, Familiar e Agropecuário de Veredinha - ACODEFAV, que, por sua vez, está vinculada a uma rede, que é a Associação Mineira das Escolas Famílias Agrícolas - AMEFA. A EFAV foi criada a partir da demanda e organização das próprias famílias camponesas locais e integra a luta por uma Educação do Campo de qualidade e em defesa da agroecologia.

O Projeto Residência Pedagógica (RP) atuou na EFAV e teve como residentes os estudantes da Licenciatura em Educação do Campo José Itamar Guimarães, Lucas Alves, Tainá Fernandes e Marta Cordeiro, e como preceptora, a professora Neltinha Oliveira.

Foto do arquivo pessoal da autora: reunião da RP na EFAV
Foto do arquivo pessoal da autora: reunião da RP na EFAV

O RP fortaleceu as atividades de leitura que já eram desenvolvidas na disciplina de Língua Portuguesa e ampliou diálogos em sala de aula tecendo relações com a realidade a partir da problematização da história das Escolas Famílias Agrícolas e o protagonismo das famílias camponesas. Em um momento de contextualização da história da EFAV e com a participação de seus fundadores, foi possível relembrar as lutas que foram travadas e os estudantes fizeram a atualização da história da escola incluindo as próprias trajetórias. Na proposta de cartografia social, os estudantes desenharam as próprias comunidades por meio de maquetes, trabalho que foi realizado em parceria com a disciplina de Geografia.

Ter contato com os estudantes secundaristas e com o ambiente escolar foi primordial para chamar a atenção aos diferentes assuntos que viriam a ser tematizados na regência dos licenciandos: a história do movimento EFA no Brasil e no Mundo, a importância da leitura contextualizada, a monocultura do eucalipto na região e a relevância da agroecologia.

Aos poucos, a RP foi integrando à dinâmica da EFAV e os residentes contribuíram em vários momentos pedagógicos, por exemplo, o GEPE - Grupo de Estudo, Pesquisa e Extensão que é um projeto desenvolvido pela EFAV em que os estudantes planejam e realizam experimentos envolvendo temas das comunidades que estão ligados à área técnica em agropecuária. Ao longo do ano, o RP acompanhou as etapas do GEPE que foram propostas pela equipe escolar, sendo elas: introdução, justificativa, objetivos, metodologia e experimentação.

O RP acompanhou e auxiliou, ainda, na construção do diagnóstico participativo da escola que foi elaborado com toda a comunidade escolar. As perguntas geradoras do diagnóstico foram: O que tem na minha comunidade? O que não tem na minha comunidade? O que poderia ter na minha comunidade? As respostas a essas perguntas apontaram para a importância da Agroecologia que gerou um Plano de Estudo para a turma do 2º ano. Dada a relevância do tema e as inúmeras possibilidades de diálogo com a área de Ciência da Natureza e da Linguagens e Códigos, os residentes elaboraram suas propostas de sequências didáticas atendendo ao tema: Agroecologia - ciência, prática e movimento. Além dessas três dimensões, abordaram as relações sociais de gênero dentro da Agroecologia e as práticas de cultivo agroecológico.

Os momentos de leitura em sala de aula possibilitaram refletir ideias da escritora Ana Maria Primavesi e as práticas de cultivo agroecológico que estão em uso na propriedade da EFAV: compostagem, bokashi, biointensivo, SAF e caldas alternativas. Essas teorias agroecológicas foram fundamentais para debater a questão da monocultura do eucalipto na região, provocando discussões dos benefícios de um cultivo com diversidade e o cultivo de uma única cultura, além de abordar os impactos ambientais ao longo do tempo.

Na visita de estudo ao Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), os estudantes fizeram questionamentos quanto à vivência agroecológica, as lutas políticas e os desafios da agroecologia no Vale do Jequitinhonha. Uma caminhada educativa pela propriedade permitiu conhecer outras tecnologias agroecológicas e motivou os estudantes persistirem e defenderem a agroecologia nas comunidades. Na atividade de retorno, os estudantes foram motivados a proclamarem a mensagem da Agroecologia a mais pessoas e, com isso, os estudantes realizaram diversos momentos formativos entre os familiares e amigos, na antiga escola e na igreja da comunidade. Foi perceptível que muitas pessoas nunca tinham ouvido falar em agroecologia, mas possuem a consciência da relação humanizada com a natureza.

Escolher a Agroecologia como centralidade do RP na Escola Família Agrícola de Veredinha foi uma oportunidade única para problematizar a realidade com legitimidade, pois estávamos envolvidos com as pessoas que diariamente vivenciam os desafios do semiárido. A Agroecologia é a esperança de vida no semiárido e a monocultura é a morte. A experiência da RP mostrou que ser educador do campo é revolucionar o ensino, é entender que a base curricular é o próprio emaranhado da vida no campo.


1 Neltinha Oliveira é professora da EFAV, preceptora do RP local, graduada em Licenciatura pela Educação do Campo pela UFVJM e mestranda em Ciências Humanas pela mesma instituição.