PRÁTICAS DE LEITURA E ESCRITA NA EDUCAÇÃO DO CAMPO

Por Eliane Maria Gomes Barbosa e Carlos Henrique Silva de Castro

As práticas de leitura e escrita, além de promoverem uma leitura mais ampla do mundo em que vivemos, podem nos ajudar a compreender nossa história em diversos aspectos, bem como a vida de diversos sujeitos de toda a sociedade, seus modos de ver o mundo, de construir sentidos e conhecimentos. Vivemos em uma sociedade altamente letrada, pois temos muitos textos escritos nas nossas relações diárias, e eles só se multiplicam com a internet nas nossas mãos. Compreender como se dão essas relações interativas e como são as diversas leituras de mundo depende da reflexão, mas também de uma prática que seja real, que seja útil no dia a dia, que dialogue diretamente com os conhecimentos locais e, sobretudo, parta deles para, então, expandirmos para o entendimento e a construção de conhecimentos mais globais. Na Educação de Jovens e Adultos (EJA), por exemplo, haverá pessoas motivadas a escreverem cartas ou textos memorialísticos; no Ensino Médio, a confecção de um currículo será uma necessidade; na infância a leitura de contos lúdicos terá muito mais sentido; dentre outros exemplos de contextualização.

O processo de se entender a melhor maneira de se estudar línguas e de se praticar os diversos usos de língua (interação, raciocínio, construção de sentidos, comunicação), em processos de pesquisa com metodologias bem definidas, é o que chamamos de ciência na área do ensino de línguas. Com diferentes metodologias, faz-se ciências em diversas áreas do conhecimento, de farmácia ou engenharia a letras e artes e por aí vai. No caminho da construção de conhecimento científico, estudantes da Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) puderam reviver momentos marcantes de suas vidas quando foram convidados a escreverem textos memorialísticos sobre suas experiências de leitura e escrita. O objetivo foi, sobretudo, refletir sobre processos de ensino e letramentos das comunidades dos estudantes, além de um objetivo funcional que foi construir um livro de memórias de letramentos. A partir da produção do livro, os alunos haveriam, ainda, de produzir reflexões teóricas em artigos acadêmicos para serem apresentados em um congresso, o que materializaria suas reflexões teóricas a partir de suas práticas.

Assim, o livro digital Memórias de Letramentos: vozes do campo foi produzido a partir de uma atividade de duas disciplinas da LEC/UFVJM. Instigados a escreverem sobre suas vivências com a leitura e a escrita, as influências que tiveram ao longo do processo, os estudante fizeram o livro em algumas etapas: escrita, revisão, re-escrita, formatação, impressão, costura manual das "bonecas" e, enfim, a publicação do e-book com 68 histórias sobre as práticas de leitura e escrita de estudantes dos Vales. Em novembro de 2017, o livro digital foi lançado pela Editora UFVJM, com organização dos professores Carlos Henrique Silva de Castro e Luiz Henrique Magnani. A capa do primeiro livro artesanal, "a boneca", encontra-se à esquerda na Figura 1, a seguir, e a capa do e-book, à direita.

Arquivo pessoal dos autores
Arquivo pessoal dos autores

A importância desse tipo de trabalho está, antes de tudo, na reflexão sobre a maneira como aprendemos a fim de que entendamos os processos de leitura e produção de sentidos para além do que o senso comum pode entender. A língua e as linguagens estão por todo o canto, estão presentes na comunicação, mas também na construção do raciocínio, dos modos de pensar, da construção constante de conhecimentos. Por isso, Paulo Freire cunhou a expressão leitura de mundo[1], pois entender os aspectos fônicos, morfológicos e sintáticos é apenas uma pequena parcela de todo o esforço de se fazer uma compreensão eficiente das complexidades que nos cercam. Para muito além das questões estruturais, é de extrema importância, a compreensão daquilo que dominamos e, sobretudo, daquilo que nos domina, das relações, das interações, dos afetos.

Assim sendo, a escrita das memórias foi capaz de proporcionar reflexões sobre os diversos momentos com as práticas letradas, essenciais para a formação do professor que esperamos para uma educação crítica. Nessas reflexões, há um lugar especial para os primeiros contatos através de textos verbais e não-verbais, quando os autores já se aventuravam por um universo amplo de signos e significados mesmo antes de frequentarem a escola. Ao fim, as aprendizagens com o livro e as reflexões teóricas foram registradas nos já citados artigos acadêmicos que os estudantes apresentaram em congressos acadêmicos. Ao todo, essas reflexões resultaram em mais de 30 textos sobre a sala de aula e as relações de interação e ensino de língua na escola, mas também sobre as experiências de várias comunidades em seus cotidianos.

Esse tipo de pesquisa interessa muito ao professor, mas também ao cidadão comum, como o pai e a mãe de estudantes em qualquer nível que podem e devem acompanhar o desenvolvimento de seus filhos. Esse trabalho interessa às escolas que buscam trabalhar com as orientações educacionais estabelecidas em pesquisas e em leis brasileiras, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, com métodos que proponham a escrita e a leitura com propósito de diálogo com leitores reais e/ou em situações reais de interação. Parece complicado estudar leitura e escrita de forma contextualizada, mas há muitas possibilidades. Vários gêneros podem compor livros artesanais e ou digitais, já que as impressoras hoje em dia são muito mais acessíveis e as plataformas digitais é o que não faltam como a WikiLivros[2] e outros. Também pode-se circular os textos em blogs, pode-se produzir memes com metáforas para as redes sociais, produzir o jornal ou a rádio da escola etc.

Quer conhecer mais? Acesse o e-book Memórias de Letramento: Vozes do Campo com relatos de vários estudantes da LEC/UFVJM que pode ser baixado gratuitamente em <https://acervo.ufvjm.edu.br/jspui/handle/1/1586>.

Um outro trabalho nos mesmos moldes, onde os autores, professores e estudantes diretamente ligados ao nosso curso, propuseram a escrita de gêneros diferentes - como poemas, relatos e causos - para diferentes turmas do ensino fundamental e médio é o livro Padre João Afonso: traços e laços de uma comunidade do campo, organizado por Diogo Neves Pereira Hemerenciana Maria da Silva e Maurício Teixeira Mendes. Ele também foi lançado pela editora UFVJM e pode ser acessado e baixado gratuitamente em <https://acervo.ufvjm.edu.br/jspui/handle/1/1759>.

A expectativa é que esse material possa levar à reflexão, à aprendizagem. Caso se inspire e queira fazer um produto parecido, não deixe de entrar em contato conosco.


[1] FREIRE, P. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 41. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

[2] < https://pt.wikibooks.org/wiki/Wikilivros:P%C3%A1gina_principal>

Veja também

Como alguém que acompanha de perto o projeto 'Olhares do Campo' desde seu início, quando atuava como bolsista ao fim de minha graduação, trago hoje uma retrospectiva de um ano do projeto. Como sou natural de uma comunidade do campo, ao longo de minha vida não sabia exatamente o que era novo em uma notícia, apesar de gostar de...