ONDE ESTÁ O CAMPO NAS JUVENTUDES MODERNAS?

*Por Juliano Gonçalves Pereira

 "O sertão está dentro da gente", disse Guimarães Rosa. Esta frase acompanhou-me nas travessias que fiz e serve de pista para a indagação que abre este texto. Há cinco anos retornei a Minas Gerais, depois de uma temporada passando por Brasília/DF e Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2016 finquei minhas raízes na cidade de Diamantina, onde plantei um jardim, produzi frutos, e pude partilhar experiências e momentos significativos com este segmento que, embora familiar, não estava em meu radar de atenções, críticas e estudo: as Juventudes do Campo.

Assentei minha vida acadêmica nos estudos das Juventudes, sobretudo as Negras, escritas no plural para ressaltar suas múltiplas identidades e diversidades. Seduzido e ocupado com os temas emergentes e midiáticos que pairam sobre este contingente em meio urbano -, direitos, violência, organização política, acesso e permanência na universidade - deixei de observar as idiossincrasias das Juventudes do/no Campo que, em sua maioria, também são negras: quilombolas, ribeirinhas, agricultoras, ou apenas juventudes. Nos últimos anos, fui despertado, pela convivência, às particularidade deste segmento e, desde então, venho acompanhando suas múltiplas facetas e os grandes desafios desta existência. 

Juliano Gonçalves Pereira. Fonte cv Lattes
Juliano Gonçalves Pereira. Fonte cv Lattes

As Juventudes do/no Campo são diversas e, neste texto, busco refletir sobre uma das inquietações levantadas a partir de minha participação na disciplina Linguagem e Sociedade do curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFVJM, na qual, junto ao Professor Luiz Henrique Magnani e aos estudantes, senti-me provocado a pensar o lugar do Campo nas Juventudes Modernas residentes em redes sociais. A atividade prática teve como tema: Identidades e Narrativas no Contexto do Campo.

Neste tempo presente, onde o smartfone conectado à internet nivelou humanos a cidadãs e cidadãos em rede, ou a trabalhadores que produzem freneticamente conteúdos que alimentam a nuvem virtual com imagens, vídeos, conversas e sociabilidades ancoradas em comunicações imediatas e relações fluidas, vê-se que essas experiências certificam o que o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman nomeou de "Modernidade Líquida". Talvez haja um risco em aproximar as Juventudes do/no Campo à ideia de origem, ancestralidade, terra fértil, água fresca, fruto limpo - experiências empíricas coletivas que o virtual não alcança e, às vezes, não valoriza. Por isso aqui as pontuo como marcadores das trajetórias, que mesmo sendo alteradas com o tempo, se identificam no corpo desta Juventude como sinais de uma vivência cada vez mais rara. Não é pretensão polarizar a experiência do Campo com a Cidade tecnológica, até porque, as Juventudes do/no Campo que inspiram esta reflexão transitam, por estes dois mundos, e são o que são, pelos conflitos sociais das travessias realizadas por entre eles.

Acredito sermos resultados das experiências que acumulamos e, por mais que alteremos hábitos, mudemos de perspectiva, religião e de lugar, sendo possível e inclusive juridicamente legal mudarmos de sexo, trazemos em nosso corpo o resultado das vivências que construímos ao longo de nossas vidas. Neste sentido, tomamos decisões difíceis para sermos aceitos e reconhecidos. Alteramos o discurso, mudamos o estilo de vestir, adaptamos nosso corpo, cabelos, forma de andar e falar, para parecermos mais semelhantes ao grupo que desejamos proximidade. Foram vários os momentos em que precisei abandonar as marcas de pertença de norte mineiro para ser respeitado e, muitas vezes, para me proteger; e ainda que esta postura tenha se tornado um hábito, basta um retorno à minha terra natal, uma ou duas conversas com os meus semelhantes, que tudo volta - sotaque, manias - como um chip que, quando plugado, atualiza a minha forma de existir, demarcando o mineirinho do interior de Minas que sou.

Recuperando a provocação do título - Onde está o Campo nas Juventudes Modernas? - talvez seja interessante propor um deslocamento. Será que mais importante que tentar identificar a presença do que estamos chamando de 'Campo' nessa categoria das 'Juventudes Modernas' não seria refletir sobre as mudanças do Campo na Modernidade, que, por causa da globalização, parece ter se alterado e, assim, exige outras/novas lentes interpretativas? Suponho que a resposta para esta pergunta não se esgote aqui. Talvez como as discussões sobre Juventudes em nosso país, que vem alterando nosso entendimento sobre este tema, o Campo precise ser alterado, não se reduzindo a uma ideia de lugar. Nesse sentido, importa refletir a respeito de conflitos de adaptação necessária para se atender à universidade, ou tantos outros que ainda precisarão ser feitos durante a vida, algo esperado a cidadãs e cidadãos desse novo mundo cibernético. Talvez outras e novas perguntas necessitem ser levantadas sobre este tema, e com o tempo e sorte, consigamos alcançar a potencialidade de um estilo de vida que não nos force abandonar ou perscrutar o que simplesmente vive em nós

Referencias:

ROSA, G. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 14ª ed., 1980: 54.

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, 2001.


* Juliano Gonçalves Pereira é pai de Ayana Emiliano Gonçalves, Catrumano, nascido no sertão de Guimarães, na cidade de Montes Claros e um apaixonado pelo território mineiro. Tem licenciatura e bacharel em Educação Física e História, cursou mestrado em Relações Étnico-raciais no CEFET/RJ e atualmente cursa doutorado no programa de pós-graduação em Educação da FAE/UFMG.

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