O DIA QUE A TERRA PAROU

Por Larissa Cristina Santos Barroso*

Fonte: <pixabay.com>
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Acordei com os olhos em brasa e os abri com tamanha dificuldade. Primeiro vi um grande clarão e depois o azul fustigante do céu. Não sabia onde estava nem como tinha ido parar ali. Em volta só havia mato. Lembrei que tínhamos ido juntos. Mas onde você estaria? Levantei com certa dificuldade, mil martelos trabalhavam dentro da minha cabeça. Sentei. Pensei. Lembrei que tínhamos corrido para nos abrigar debaixo das pedras, perto do velho galinheiro e a última coisa da qual me lembro é da sua voz me gritando para abaixar. Levantei com custo. Consegui atravessar a cerca do galinheiro e fui atravessando a plantação de milho. A casa parecia quieta como se humanos nunca a tivessem habitado. Chamei por você várias vezes, vasculhei todos os quartos e cômodos: ninguém. Saí correndo para a rua. Só carros sem pessoas. Bati no portão do vizinho em frente várias vezes e em vão. Saí então pelo bairro inteiro, percorri várias ruas, subi até o centro. Delegacia e hospital, ninguém respondia. Veio em mim, então, o velho medo de criança: estar absolutamente sozinha. Sentei na calçada e o choro me foi iminente. Por que eu? Nada daquilo fazia sentido. Pra onde teriam ido todas as pessoas da cidade? Resolvi entrar em um carro que estava com as portas abertas. Buzinei incessantemente. Nada. E se fosse só aqui? E se nas outras cidades tudo estivesse normal? Resolvi então que iria até as outras cidades vizinhas. Já na estrada percebi uma movimentação. Vários cães reunidos em torno de algo que parecia uma carcaça de outro animal. Me aproximei devagar e só então me dei conta que os animais não haviam desaparecido, percebi então vários pássaros em voo. Ainda há esperança de haver pessoas, pensei. No carro tentei sintonizar alguma rádio, algum sinal de vida humana. Mas nada foi localizado. Continuei na estrada, as casas pelo caminho também não apresentavam sinal de vida. Resolvi parar em uma delas. Primeiro buzinei várias vezes, depois gritei. Lá de dentro apenas o latido dos cachorros responderam ao meu chamado. Voltei desolada para o carro mas com um resquício de esperança de que na próxima cidade haveria outras pessoas. Já estava anoitecendo quando cheguei. Resolvi parar num posto. Fui até a conveniência e chamei diversas vezes, como ninguém atendeu resolvi entrar. Percebi que não havia energia elétrica em parte alguma, recolhi alguns alimentos me sentei em uma mesa e dormi por ali mesmo. No dia seguinte, fui acordada por algo que passeava pelos meus pés. Fiquei feliz por perceber que era um filhote de gato pequeno e amarelo com listras, parecia tão assustado quanto eu, resolvi que o levaria comigo. Juntei os alimentos numa sacola e fui em direção ao carro só então tive a estranha sensação de estar sendo observada. O medo tomou conta de mim. Me agarrei ao gatinho e corri para o carro. Segui viagem até a cidade. Passei por várias ruas buzinando e nada. Meses se passaram e eu continuava nessa mesma saga cidade após cidade. Todas as vezes que a gasolina acabava eu trocava de carro. Dirigi diversos tipos de carros. Após um ano na estrada descobri que o gato na verdade era uma gata e a chamei de Mel e percebi que os outros animais pareciam ter perdido o sentido da domesticação voltando às suas origens selvagens. Cansei de procurar. Sentia muito sua falta e a presença de Mel aliviava essa saudade pois você era apaixonado por gatos. Resolvi então que iria conhecer o litoral baiano que sempre foi uma paixão minha e sua. Quase na fronteira dos estados resolvi parar em um restaurante. Peguei Mel, a mochila pra recolher alimentos e uma arma. Sim eu resolvi que teria uma arma e mesmo não sabendo usar achei melhor tê-la por perto. Gritei várias vezes antes de entrar, e em vão como esperado. Entramos. Soltei Mel mas sempre de olho por onde ela andava, fui direto para a geladeira e para as prateleiras. Sentada em uma mesa, percebi que o prazo de validade da água estava marcando JAN/2108. Nesse momento entrei em choque. Vasculhei todos os outros alimentos e as datas eram semelhantes. Meu Deus! Por quanto eu havia dormido? A última vez que me lembro, a data era verão de 2018. Perto do caixa um calendário marcava os meses do ano de 2106. Continuei sem entender. Ainda confusa juntei a mochila, apanhei Mel do chão e fui em direção ao carro. E para meu espanto e medo o carro havia desaparecido. Só posso estar ficando louca, pensei. Fui na parte de trás do local e nada. Mais uma vez senti a estranha presença de alguém. Corri até o carro mais próximo e saí em disparada em direção à estrada. Dirigi por vários dias sem parar, queria ficar o mais longe possível daquele local. As placas indicavam que estávamos bem próximas do litoral. Queria começar por Ilhéus e depois ir seguindo litoral acima. A descida até a cidade era bem íngreme. Lá de cima já se podia ver o mar da Bahia. Parei o carro para contemplar aquela vista e algo estranho na praia me chamou a atenção. Parecia ser alguém parado admirando o mar. Entrei rapidamente no carro e desci o mais rápido que pude a estrada, passei rapidamente pela entrada da cidade e segui para a praia. Em uma das orlas vi algo ou era alguém parado, observando o mar. Desci com a arma na mochila. A alguns metros gritei várias vezes, mas não houve qualquer manifestação. Fui me aproximando e percebi que era a estátua de um pescador. De repente uma mão toca meu ombro. Perdi o chão. Minhas pernas tremiam e todo o meu corpo respondeu com um grave arrepio. Não tive coragem pra virar. Foi quando uma voz muito familiar disse: _Bom dia Lara, dormiu bem?

* Estudante do curso de Farmácia da UFVJM.