O CONSUMO CONSCIENTE, MODA E TRABALHO ESCRAVO

O trabalho escravo é um fenômeno mais amplo do que se imagina. É fácil encontrar notícias de uma realidade que boa parte das pessoas desconhece ou imagina ser possível nesse mundo globalizado, o trabalho escravo nos bastidores da indústria fashion. Para uma prestação de serviços mais barata, muitos atentam contra a dignidade do ser humano, até com a restrição de liberdade, o que deve ser compreendido como uma violação aos direitos humanos e do trabalhador.

ARTIGO DE OPINIÃO*

Por Liliane Avelino Caldeira e Vanúcia Gonçalves de Souza

Fonte: <pixabay.com>
Fonte: <pixabay.com>

Historicamente, o Brasil é um país que foi construído a partir do trabalho escravo e, mesmo com a abolição da escravatura, ainda se encontrar em diversos setores pessoas trabalhando em regime análogo a escravidão. Algumas notícias de jornal dão conta que o trabalho escravo atinge tanto o ambiente rural quanto o urbano[1].

No mundo da moda não é diferente e diversas grifes de luxo, como a grife Animale que, segundo o site Brasil Repórter, vendia suas peças fabricadas por trabalho escravo, a R$5,00, por um preço final de R$ 698.00. O escravismo no mundo da moda é o segundo setor no ranking de trabalho escravo[2].

A partir da década de 1980, a indústria da moda criou um novo padrão de consumo, sustentado com baixo custo de produção, com vendas rápidas e preços atrativos, as fast fashion. Esse nome foi dado a uma nova maneira de consumir da moda, no qual as empresas que trabalham neste modelo observam o que as pessoas estão consumindo das marcas renomadas e fabricam em larga escala modelos parecidos, porém com qualidade inferior e mão de obra barata. Para esse esperado baixo custo, muitas vezes utilizam de trabalho escravo ou análogo à escravidão.

Quem se submete? Como isso se dá? Muitas empresas utilizam da vulnerabilidade econômica dos cidadãos menos escolarizados e de imigrantes para explorá-los. Um fator que auxilia esse processo é a terceirização da produção; pois nossas leis permitem relações nas quais os donos das lojas muitas vezes se eximem de responsabilidade e os consumidores, por sua vez, não têm acesso às informações de como essas peças foram confeccionadas.

De acordo a Comissão Pastoral da Terra[3], de 1995 até 2018 foram realizadas, no Brasil, 40 mil fiscalizações de resgate no setor têxtil e ainda assim temos pessoas sendo exploradas no mundo da moda. Um grande varejista atuado, segundo o site Em Discussão[5], foi a rede de lojas Pernambucanas. Nesse caso, 16 bolivianos foram encontrados com jornada exaustiva de trabalho de 14 horas, servidão por dívida, alojamento inadequado, falta de fornecimento de boa alimentação e água potável.

As empresas autuadas negam envolvimento com o trabalho escravo na confecção das suas peças de roupas e afirmam que respeitam as obrigações contratuais com seus clientes e que forneceram todas informações que lhe são solicitadas. Acrescentam também que fazem vistorias frequentes nas empresas que contratam, porém não é isso que a fiscalização de resgate de trabalho escravo comprova ao realizar a verificação das denúncias.

De acordo o Código Penal, Decreto-Lei 2848/40 de 07 de dezembro 1940, o que caracteriza o trabalho escravo no Brasil é: o trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes no ambiente de trabalho e jornada exaustiva de trabalho. Segundo a Carta Capital[3], a ONU apresentou um relatório que diz que no Brasil, em 2018, havia quase 370 mil pessoas que se encontravam em regime escravocrata. Na contramão de solucionar o problema, leis continuam a ser criadas para tirar mais direitos do trabalhador, o que aumentará a exploração, a exemplo das reformas trabalhista e da previdência.

Da parte do cidadão, devemos questionar como foram confeccionadas nossas roupas e de onde elas vieram. Temas como esse expõem uma das linhas mais obscuras do escravismo e precisa ser conhecido por todos, buscando caminhos para conscientização desde a infância, pois trabalho escravo é crime. Sabemos que esse processo de conscientização é lento e que temos que construí-lo aos poucos, pois faz parte da cultura brasileira não questionar de onde vem os produtos que consomem. Nesse processo, a escola pode ajudar na conscientização e auxiliar no combate ao trabalho escravo abordando esse tema com os estudantes, desde os anos iniciais até a sua formação.

Como futuras educadoras, pensamos que a escola é um agente importante para a conscientização sobre o consumo consciente no contexto da moda ou quaisquer outros contextos. Acreditamos que uma população consciente irá questionar, refletir, valorizar a forma de produção. O consumo consciente é uma forma de pressionar as empresas para que cumpram padrões dignos de produção para seus trabalhadores.

Nas comunidades e escolas, podemos ainda promover a conscientização por meio de oficinas de customização de peças de roupas, de campanhas de doação, de realização de brechós, organização de associações de costureiras da região, entre outras possibilidades. Um exemplo bom desse tipo de iniciativa é a marca Kilombu Modas, idealizada e em produção por um grupo composto por sete mulheres do Quilombo Santa Cruz, de Ouro Verde de Minas, Minas Gerais. Elas idealizaram um projeto de moda afro para o empoderamento feminino e negro, na perspectiva de permanecer no campo cuidando daquilo que elas acreditam. Nessa trajetória, buscam produzir peças e acessórios que trazem traços de seus antepassados e suas tradições; participam de exposições e eventos mineiros como a Expominas de Teófilo Otoni e a feira Afro Quilombola em Belo Horizonte. As peças do Kilombu Modas podem ser encontradas no Instagram, kilombuModas.

Nós amamos a moda, mas não queremos que as nossas roupas explorem ninguém. Então, consumo consciente está na moda e devemos vestir essa camisa.


[1] <https://www.portalt5.com.br/noticias/brasil/2019/1/181916-trabalho-escravo-urbano-ultrapassa-casos-no-campo-em-2018>. Acesso em: 15. Set. 2019.

[2] <https://mabellevitrine.com/index.php/2019/01/28/o-trabalho-escravo-no-mundo-da-moda/>. Acesso em: 09. Set. 2019.

[3] <https://vogue.globo.com/Apresenta/noticia/2018/10/precisamos-falar-sobre-trabalho-escravo-na-moda.html>. Acesso em: 15. Set. 2019.

[4] <https://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/trabalho-escravo/casos-atuais-de-escravidao/lojas-pernambucanas.aspx>. Acesso em: 04. Jul. 2019.

[5]   <https://www.cartacapital.com.br/sociedade/com-370-mil-escravos-modernos-brasil-lidera-ranking-na-america-latina/>. Acesso em: 08. Set. 2019.

* Artigo de opinião desenvolvido para a disciplina Diversidade e Educação, do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da UFVJM.