NOTA MÁXIMA PELO MEC

Resultado na avaliação do MEC é um importante reconhecimento de uma luta de longa data iniciada por movimentos sociais e agricultores para uma educação de qualidade e contextualizada.

Por: Emanuela Raymunda de Souza Miranda

O curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) recebeu em novembro último nota 05 dos avaliadores do MEC, valor máximo que pode ser atribuído a um curso de graduação. Segundo o portal da UFVJM[1], dez cursos foram avaliados na ocasião: Engenharia Geológica, Engenharia de Materiais, Medicina (Campus JK/ Diamantina), Zootecnia (Campus Unaí), Educação a Distância (EAD), Agronomia, Engenharia Agrícola e Ambiental, Medicina Veterinária, Engenharia Física.

A LEC foi o único curso a atingir o patamar mais alto da avaliação. Mas o que será que isso significa, na prática e no cotidiano, para a comunidade acadêmica e para os sujeitos do campo da região? Buscando refletir sobre essas questões, procuro fazer aqui um relato de experiência enquanto recém-graduada do curso.

Nestes últimos quatro anos em que estive vinculada ao curso, a LEC vem enfrentando enormes desafios para se manter em pé e fazer valer a pena toda a luta dos movimentos sociais e agricultores que há anos lutam por uma educação contextualizada para seus filhos campesinos. Para que uma educação tenha de fato uma significação, são necessários sujeitos formadores deste meio e sensíveis aos seus contextos; daí surge a importância da Licenciatura em Educação do Campo.

 O curso busca formar professores que, para além dos conteúdos oferecidos na grade curricular da educação básica, consigam articular o processo educativo com ações dos povos campesinos, quilombolas, indígenas, geraizeiros, ribeirinhos, entre outros, que possuem saberes ancestrais ligados a seu histórico social e cultural. Através da pedagogia da alternância - que envolve, entre outras coisas, atividades ocorridas diretamente nas comunidades campesinas - os discentes em formação conseguem efetivar um diálogo entre saberes científicos e populares, destacando esse processo na construção de vida dos sujeitos envolvidos.

Atualmente, a situação se mostra desanimadora em relação ao reconhecimento e à importância que a Educação do Campo possui para o país. Apesar de resultados concretos e visíveis, como mostra a própria avaliação do MEC, a cada ano que passa, nota-se a força de um sistema vindo de cima para baixo que resiste em enxergar a riqueza de uma formação como essa.

O resultado do MEC apenas consolida o que as comunidades e estudantes já haviam observado na prática: a Educação do Campo tem uma das melhores metodologias de ensino para nossa população atualmente, pois a alternância de espaços de formação estimula a troca de saberes e, consequentemente, a contextualização. A formação está para além da habilitação técnica nas áreas das Ciências da Natureza ou Linguagens e Códigos; pois promove-se, também, um engajamento social, político, cultural e de luta da identidade campesina.

A nota do MEC é de fato significante para o reconhecimento e fortalecimento do curso e das escolas do campo, com ou sem alternância, mas não é somente isto. O que de fato mostra que o curso vale a pena é a atuação dos sujeitos formadores que, em sua grande maioria, atuam ativamente como sujeitos que preocupam com a valorização do seu meio, como educadores em Escola Família Agrícola (EFAs), em escolas públicas do estado de Minas Gerais, ou como líderes e representantes de movimentos e entidades sociais. .

A prática da educação do campo se torna real quando desafiamos lógicas do ensino tradicional, que algumas vezes cedemos, e começamos a promover uma troca realmente dialógica com o estudante, com suas necessidades tão específicas na zona rural. Não há uma receita já pronta que resulte em aulas perfeitas; mas o caminho a se seguir é por aulas dialógicas e críticas, a fim de promover emancipação na leitura do mundo.

Estão de parabéns todos aqueles que, de alguma forma, estiveram presentes na luta em prol da Educação do Campo. Com essa nota 5, cada sujeito ativo nessa construção deve ser valorizado. Esperamos que a nota não fique apenas como um registro burocrático arquivado, mas que explicite o fato de que a Educação do Campo e os atores responsáveis por sua criação e operacionalização merecem um reconhecimento e um investimento de qualidade de verdade!

"O campo dos Vales, os Vales que educam, Educação do Campo!"

(Lema da Licenciatura em Educação do Campo da UFVJM)


[1]<https://www.ufvjm.edu.br/noticias/9561-2019-11-20-19-28%2016.html?lang=pt_BR.utf8%2C+pt_BR.UT> Publicado em 20 de novembro de 2019. Acesso em 26 de novembro de 2019.

SOBRE A AUTORA: Emanuela Raymunda de Souza Miranda é graduada em Licenciatura em Educação do Campo, habilitação Linguagens e Códigos, e professora de educação básica e técnica.