FAMÍLIAS LGBT's

A ideia de família que a maioria dos indivíduos tem hoje, composta por um homem cis hetero e uma mulher cis hetero, se baseia numa perspectiva burguesa extremamente preconceituosa, repleta de interesses ligados ao capital. Ou seja, o capitalismo encontrou mecanismos de controlar a sexualidade dos indivíduos (SANTOS, 2013)[1].

Por Jhonatas de Oliveira Frois e Nágila Cristina dos Santos

Fonte: <www.istockphoto.com>
Fonte: <www.istockphoto.com>

Se considerarmos que "[a] sexualidade humana é formada por uma múltipla combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, e é basicamente composta por três elementos: sexo biológico, orientação sexual e identidade de gênero" (ALVES, 2014, p. 9)[2], percebemos que tentar controlar a sexualidade dos indivíduos pode ser complicado. O que se busca, normalmente, é criar certas caixinhas, como um conjunto de expectativas, para determinados tipos de pessoas. Ou seja, padronizar o desejo, o que não é uma boa ideia, pois a orientação sexual é determinada por inclinações que não são escolhas do indivíduo (ALVES, 2014) e é muito diversa, difícil de ser padronizada. O resultado dessa tentativa de controle da sexualidade humana são as diversas formas de violência a partir de comportamentos homofóbicos.

A homofobia se constrói, portanto, como uma das diversas maneiras de proteger e manter imaculada a dominação da família patriarcal, se trata de um sistema estruturado a partir da necessidade de combate à contestação da naturalidade da família heterossexual. (SANTOS, 2013 p.116)

Numa sociedade marcada por hierarquias, até mesmo dentro da estrutura familiar, e exploração do trabalho, como a que vivemos, seguindo a fala de Santos (2013), ter uniões afetivas que não obedeçam este padrão heterossexista, como é o caso das famílias LGBT's, resulta na exclusão do sujeito, privando-o dos seus direitos enquanto cidadãos. Porém, nos últimos tempos, apesar de todo preconceito envolto no nosso meio, as famílias LGBT's têm ganhado cada vez mais espaço. De acordo com Martinelli (2018)[3], em análise do IBGE de 2017, o número de casamentos totais diminuiu 2,3%, o casamento entre pessoas do mesmo sexo aumentou cerca de 10%.

A participação dessas famílias no ambiente escolar se torna muito importante para a desconstrução do preconceito, a fim de que se construam cidadãos críticos que compreendam sua realidade, questionando os paradigmas impostos na sociedade. Assim, a interação das famílias LGBT's com as demais no espaço escolar, bem como em toda a sociedade, se torna uma importante ferramenta para o diálogo e, consequentemente, para o conhecimento. Isso se reflete em especial nas comunidades rurais, onde a presença de uma família LGBT pode mudar toda a percepção da comunidade com relação ao tema, não sem percalços e muito diálogo, obviamente.

Essa importância da participação das famílias LGBT's na comunidade escolar pode ser perceptível na figura 1, a seguir, que aponta, segundo a pesquisa Nacional Sobre o Ambiente Educacional no Brasil (2016)[4], que das características que mais constrangem os alunos na sala de aula é a orientação sexual, o que reforça a importância das famílias LGBT's no ambiente escolar.

Porcentagem de estudantes que se sentem inseguros na instituição educacional por causa de uma característica física.  Fonte: <https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf>
Porcentagem de estudantes que se sentem inseguros na instituição educacional por causa de uma característica física. Fonte: <https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf>

Apesar de orientação sexual despontar como a maior preocupação dos estudantes, como 60,2% como demonstrado no gráfico acima, grande parte das escolas não estão preparadas para lidar com as famílias LGBT's, tendo em vista que a violência impregnada na sociedade contra a comunidade LGBT se reflete neste espaço. Isso pode ser perceptível nos índices de violência contra LGBTs no Brasil, que é o país que mais mata LGBT's no mundo. De acordo com Sobrinho (2019)[5], em análise de dados da Diretoria de Promoção dos Direitos LGBT do Ministério dos Direitos Humanos, registrou-se, no Brasil, uma morte por homofobia a cada 16 horas no período de 2011 a 2018. Essa violência pode ser entendida como um ciclo, onde uma educação de má qualidade produz uma sociedade violenta, e uma sociedade violenta traz essa violência para dentro do espaço escolar.

Outro fato que também influencia nesse despreparo das escolas em lidar com as famílias LGBTs é a falta de formação adequada a grande parte de seus profissionais. Estima-se, de acordo com dados do censo escolar 2015 divulgados pelo governo federal[1], que seja cerca de 40% dos professores brasileiros não têm a formação adequada para os conteúdos que lecionam. A questão da falta de formação dos professores pode ser percebida na figura 3, abaixo, oriunda da já cita Pesquisa Nacional Sobre o Ambiente Educacional no Brasil, que mostra a atuação dos professores frente a comentários LGBTfóbicos feitos em sala de aula.

Frequência de intervenção de professores e estudantes frente a comentários lgbtfóbicos na escola. Fonte: Fonte: https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf
Frequência de intervenção de professores e estudantes frente a comentários lgbtfóbicos na escola. Fonte: Fonte: https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf

A imagem mostra que, em grande parte dos casos, os educadores se omitem frente às situações opressoras; e que, em muitos casos, os alunos interferem mais que os próprios professores. O principal argumento que muitos utilizam contra a presença das famílias LGBT's nas escolas é a crença que a presença dessas famílias pode influenciar as crianças, aliciando-as para também se tornarem LGBT's, como se a homossexualidade ou a bissexualidade fosse transmissível. Mas essa visão já foi desconstruída, pois a atração afetiva e/ou sexual que uma pessoa manifesta em relação à outra ocorre de forma involuntária, dada pelo seu desejo (ALVES, 2014). Muitas vezes esse desejo não necessariamente é dado pelo sexo biológico com que nasce, mas por outros fatores como o cheiro, o toque, ou seja, a orientação sexual está muito mais ligada a fatores biológicos diversos do que sociais.

Na tentativa de solucionar esse problema, sugere-se que sejam feitas discussões, como rodas de conversas, entre as esferas que fazem parte deste conflito como a escola, comunidade e as famílias LGBT's. As famílias LGBT's devem ter mais voz para abrir discussões com os demais indivíduos, para diminuir a distância entre os envolvidos, para que possam participar de diálogos a fim de ajudarem a desconstruir estereótipos e preconceitos, construídos historicamente nesta sociedade capitalista, homofóbica e patriarcal.

Jhonatas de Oliveira Frois e Nágila Cristina dos Santos, são estudantes de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) pela UFVJM e este texto é resultado da debates da disciplina Diversidade e Educação, ofertada no segundo semestre de 2019.  

[1] SANTOS, Andressa Regina Bissolotti; SILVA, Henrique Kramer da Cruz. Identidade LGBT e capitalismo: a construção histórica da homofobia e as estratégias jurídicas para seu combate. In.:XV Jornada de Iniciação Científica de Direito. UFPR, 2013.

[2] ALVES; Heloisa Helena Cidrin Gama. Diversidade sexual e cidadania LGBT. São Paulo: SJDC/SP, 2014. 44p.

[3] <https://www.huffpostbrasil.com/2018/10/31/casamento-entre-pessoas-do-mesmo-sexo-cresce-10-em-2017-aponta-ibge_a_23576942/?utm_hp_ref=br-casamento-homoafetivo>

[4] https://static.congressoemfoco.uol.com.br/2016/08/IAE-Brasil-Web-3-1.pdf

[5] <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/02/20/brasil-matou-8-mil-lgbt-desde-1963-governo-dificulta-divulgacao-de-dados.htm?cmpid=copiaecola>

[6] <https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-03/quase-40-dos-professores-no-brasil-nao-tem-formacao-adequada>