EPISTEMOLOGIA DO CAMPO EM REDE: UM ANO DO PROJETO 'OLHARES DO CAMPO'

Como alguém que acompanha de perto o projeto 'Olhares do Campo' desde seu início, quando atuava como bolsista ao fim de minha graduação, trago hoje uma retrospectiva de um ano do projeto. Como sou natural de uma comunidade do campo, ao longo de minha vida não sabia exatamente o que era novo em uma notícia, apesar de gostar de assistir jornais todos os dias. Na minha infância e juventude, na maioria das casas de minha comunidade, só tínhamos acesso a notícias pela televisão no Jornal Nacional da Globo, ou pelo rádio no Jornal da Itatiaia de Minas Gerais. Não tinha noção e nem sabia que as notícias podem e são manipuladas de acordo com interesses de classes e grupos, ou que as empresas de comunicação noticiam o que acham relevante. Dessa forma, um determinado veículo de comunicação nunca é imparcial ou neutro em suas notícias.

Hoje eu vejo que, além de crescer alienado pela parcialidade dessas notícias, também vivia atrasado em relação a certos acontecimentos ou mesmo prejudicado no meu direito ao acesso a informações. Lembro-me de uma vez, em 2003, quando fazia o Ensino Médio em Itamarandiba (MG) e a diretora me falou de um concurso da Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG, que era para jovens nascidos entre julho e dezembro de 1986, sendo eu o único da escola que preenchia os quesitos. A diretora me ajudou a fazer a inscrição. Fui selecionado, porém recebi a informação via correios, mais de um mês depois da data, que deveria ter comparecido à CEMIG para a confirmação de minha vaga.

Com esse meu breve histórico de acesso às informações, hoje vejo o projeto Olhares do Campo como uma alternativa de acesso e produção de informação em grupos menos favorecidos socialmente. Com o advento das novas tecnologias, uma pessoa com um smartphone e acesso à internet pode ser um repórter (produzindo notícias) ou acessar portais de informações em uma escala local e/ou global. Isso é fantástico, e o projeto aproveitou as ferramentas dessa nova era tecnológica para trabalhar de uma forma diferenciada, sendo um veículo de comunicação comunitária tratando de assuntos corriqueiros de comunidades do campo. E ao longo de um ano, percebo que essas notícias promovem trocas culturais, epistêmicas e simbólicas entre comunidades do campo e outras comunidades, lembrando que nosso público leitor pode estar no campo, na cidade e até em outros países, uma vez que nossos conteúdos estão disponíveis na internet.

E aí? O projeto deu certo?

Eu diria que sim, em agosto do ano passado (2018) a nossa angústia era como fazer as notícias produzidas pelo projeto circular, pensávamos em boletins impressos, mas infelizmente não tínhamos recursos para conseguir as impressões. A partir das reuniões feitas pela equipe do projeto, surgiu a ideia de criarmos uma plataforma de notícias (site) e um meio de divulgarmos o site que seria uma página no Facebook. Criamos o site <www.olharesdocampo.org.br> e a página no Facebook <@olharesdocampo>.

Nesse um ano de trabalho fizemos parcerias com projetos da UFVJM - como Vídeo Cartas, PIBID, Residência Pedagógica - e também com escolas. Além disso, colhemos alguns frutos, dentre eles a produção de 6 boletins, sendo que 5 estão publicados no endereço < https://www.olharesdocampo.org/boletim> e o outro, que terá esse texto que escrevo, em processo de finalização.

Analisando nossos materiais e as estatísticas de tráfego, de setembro de 2018 (início do projeto) a 24/05/2019, destacam-se alguns dados. No site já existem 36 reportagens produzidas dentro do projeto, 44 postagens no Facebook. Apesar de ter apenas 204 seguidores em nossa Fanpage, nossas postagens no Facebook tiveram 10.396 acessos e o nosso site teve 21.776 acessos. Como isso é possível? Veja, por exemplo um recorte feito da página do Facebook:

Somente no caso da matéria acima, observa-se que 1.390 pessoas tiveram acesso a notícia, isso devido aos compartilhamentos. Os dados de navegação que apresento acima são muito maiores, pois só consigo acompanhar os acessos aos nossos veículos. Ou seja, se uma pessoa compartilha a notícia de outro usuário do Facebook e não diretamente de nossas páginas, esses dados ficam inacessíveis para nós. Isso tudo, sem contar outros compartilhamentos através de outras plataformas, como o WhatsApp.

O que fizemos afinal?

Neste um ano, temos registrado momentos pontuais de diversas comunidades, articulado nossas experiências acadêmicas com conhecimentos empíricos em uma via de mão dupla, entre outras coisas. E, com esse meu depoimento - de uma pessoa do campo e de dentro do projeto - gostaria de chamar a atenção de pequenos grupos, comunidades, escolas e associações para as possibilidades da comunicação (inter)comunitária.

Lembrando: se você -comunidade, escola, associação - possui pelo menos um smartphone e acesso à internet, você poderá veicular notícias e aumentar essa teia de comunicação de forma gratuita. Atualmente existem possibilidades de criarmos vários projetos sem custo. Caso queiram saber mais, segue meu contato na assinatura deste texto.

Termino agradecendo aos nossos leitores, e, pensando na continuidade do projeto, gostaríamos de receber seus comentários, dicas, sugestões, ou propostas de parcerias e colaborações. Essas conversas podem ser feitas pelos comentários via Facebook ou enviadas diretamente para nosso e-mail (olharesdocampo@gmail.com). Um abraço a tod@s!


Maurício Teixeira Mendes é educador do campo pela Licenciatura em Educação do Campo(LEC)  da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e Mestrando em Estudos Linguísticos (Poslin) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Contato: mauricioedocampo@gmail.com


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