ENFRENTAMENTO AO ENSINO À DISTÂNCIA NO CAMPO E AS LIVES DA TV FONEC

Por Ângela Freire

Desde o início da pandemia da covid-19, doença causada pelo coronavírus, as famílias brasileiras tiveram alterações em seu cotidiano devido às medidas tomadas para impedir a disseminação do vírus. Uma alternativa encontrada para interação nesse contexto usada por educadores e formadoras de opinião foram as lives que impulsionaram o consumo de vídeos com fins educacionais. Os estudantes da LEC-UFVJM, por exemplo, vêm fazendo uso do gênero, sempre que a qualidade da internet permite. Um canal voltado para a Educação do Campo que vem trazendo lives bastante interessantes é o canal do Fórum Nacional de Educação do Campo - TV FONEC [1], que objetiva divulgar ações, experiências e debates sobre Educação do Campo no Brasil.

Entre os últimos bate-papos promovidos, em uma programação que este período de pandemia tem sido semanal, destaca-se a do Professor Luiz Carlos de Freitas [2], aposentado da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP, colaborador e parceiro na construção de reflexões e práticas na Educação do Campo. O professor trouxe para o debate, o tema: "Educação à distância, tecnologias e Educação do Campo". A discussão girou em torno da Educação a partir da pandemia que atingiu o planeta e que acelerou uma série de tendências que já estavam em andamento. Para ele, no que diz respeito às propostas de Educação à Distância (EaD), são propostas de cunho sócio-político que visam a produzir uma nova moral e uma (re)estruturação cultural da sociedade a partir de uma educação alinhada a setores conservadores e neoliberais, com vista a obter lucro e apressar o processo de privatização. O que o professor vê no horizonte é uma escola que deixará de ser escola da comunidade para se tornar filial de uma corporação despreocupada com os contextos e voltada para o lucro.

No histórico dessa tendência, o professor aponta o processo de alinhamento com a política neoliberal no desenvolvimento da Base Nacional Comum, na produção de materiais didáticos e avaliações, que sofreram mudanças recentemente. A EAD amarraria todo o processo de educativo, controlado através de plataforma online de aprendizagem, com conteúdos definidos nacionalmente, sem espaço para os diálogos locais. A pandemia, assim, prepara a população para a nova lógica de efetivação de um sistema EAD totalmente apostilado. Em todo esse processo, o papel do professor será substituído pela figura do tutor, menos provocador que apenas auxilia o processo, sem liberdades de proposição de atividades ou programas por exemplo.

Na contramão desse processo, o professor traz sugestões para a crise que passamos. Inicialmente, sugere a suspensão das avaliações de 2020. Na sequência, enumera quatro pontos de ação.

1º Não aceitar a discussão da EAD na rede pública de educação básica, pois não há condições de aprendizagem na maioria das casas uma vez que faltam tecnologias, os pais não são professores e não há professores formados na modalidade em quantidade suficiente e nem há como formá-los de uma hora para outra. Para ele, essa forma atual de EaD que chega como alternativa de personalização do ensino, na verdade, despersonaliza porque retira o contato humano. Assim, só há uma maneira de personalizar a educação: com o magistério e com a educação presencial.

2º Investir para que o contato remoto não seja equivalente a dia letivo, pois dia letivo significa matéria dada, avaliações e, como consequência, aprofundamento das desigualdades. Além disso, a aprendizagem isolada aponta para um projeto sócio, cultural e político que não valoriza a vida coletiva, restringe a formação e individualiza com a noção de meritocracia. O ensino remoto que estão propondo está calcado no ensino tradicional, modelo já superado.

3º Não aceitar que o ensino remoto tenha objeto de avaliação, pois há enormes desigualdades e mandar prova para as casas das pessoas, em diferentes condições de aprendizagem, não é solidário.

4º Lutar para que não haja reprovação em 2020, mas apenas após a reposição presencial. Os calendários letivos, por sua vez, devem ser feitos pelas redes estaduais e municipais.

Essas e outras discussões estão sendo promovidas no canal da TV Fonec. Assim como afirma o professor, deve-se apostar na inserção do estudante na prática social, cultural e história da vida, pois isso resulta em visões mais críticas, autonomia e mais conhecimento produzido para entender, por exemplo, que as tecnologias podem e devem ser usadas, para interações ou para melhorar a performance do professor, mas devemos resistir ao retorno a uma educação arcaica que nunca funciono, mesmo com verniz tecnológico. A programação da TV Fonec é divulgada em página do Facebook que você acessa clicando aqui.

[1] <https://www.youtube.com/channel/UC79sfOVEgXuaeeaG2vWU5tw>

[2] <https://www.youtube.com/watch?v=3bdh20KTwJ4>