Educação do Campo e os desafios de uma escola em transição

De escola urbana, instituição na comunidade de Padre João Afonso, Itamarandiba-MG, passará legalmente a ser considerada escola do campo.

por Elisama Ferreira, Eliude Ferreira, Hemerenciana Silva, Miréia Sena, Renato Teixeira

No dia 17 de dezembro de 2018, bolsistas do Programa Institucional de Iniciação à Docência (PIBID) e estudantes da Licenciatura em Educação do Campo (LEC-UFVJM) entrevistaram o diretor da Escola Estadual Padre João Afonso, Cristiano Afonso Fernandes Teixeira, e também a supervisora Kátia Cunha. Cristiano é graduado em Geografia pela UNIMONTES, pós-graduado em Ensino Religioso pela UCAM PROMINAS e fez também o curso Escola da Terra como gestor. Kátia, por sua vez, é graduada em Letras e Pedagogia, especialista em Educação do Campo, em Educação Especial Inclusiva e em Gestão Ambiental e Sustentabilidade.

Escola Estadual de Padre João Afonso. Autoria de Mauricio T. . Janeiro de 2019
Escola Estadual de Padre João Afonso. Autoria de Mauricio T. . Janeiro de 2019

A escola, localizada na comunidade de Padre João Afonso, Itamarandiba-MG, está em processo de transição classificatória de escola urbana para escola do campo. Isso ocorre a partir do cumprimento da Resolução SEE/2820/2015, que define as diretrizes para funcionamento das escolas do campo, envolvendo questões como formação de professores, transporte de estudantes e calendário, entre outros. Questionado sobre desafios encontrados para colocar em prática algumas das mudanças em curso, Cristiano afirma: "o principal desafio é romper com os paradigmas e tentar pelo menos adequar o calendário a nossa realidade, que a gente não consegue. "

Segundo Cristiano, o principal motivo pelo qual a escola luta para se tornar uma escola do campo é "a qualidade de ensino para nossos alunos, porque nós temos que entender que a formação do aluno do campo deve ser diferenciada. Tem que levar todas as especificidades do campo com relação ao ensino, às dificuldades que nós temos". Um exemplo destacado pelo gestor é a questão de como a variação climática impacta na realidade da instituição e da comunidade, o que torna importante a reflexão sobre um calendário mais adequado. "Igual o dia que está hoje chovendo. Tem menino que saiu lá do Divino (comunidade adjacente de Padre João Afonso, que fica a aproximadamente 15 quilômetros da escola) e veio. E então, nós temos que romper com tudo isso, e o principal desafio é melhorar a qualidade da educação para esses meninos. "

Momento da entrevista, a direita o diretor Cristiano e a esquerda o estudante da LEC Jhonatam. Autoria de Driele Joice, dezembro de 2018.
Momento da entrevista, a direita o diretor Cristiano e a esquerda o estudante da LEC Jhonatam. Autoria de Driele Joice, dezembro de 2018.

Katia Cunha afirma que o que mais chama sua atenção na resolução são as questões referentes ao transporte escolar e ao direito da permanência do aluno na escola. Certamente essas são as maiores lutas das escolas do campo. Para a supervisora, "a mudança dessa escola, de escola urbana para escola do campo, influenciou no desenvolvimento dos alunos, porque antes eles não se sentiam parte da escola. Eles passaram a ter um sentimento de pertencimento maior e de valorização e valoração. Há ainda certa dificuldade, principalmente em relação ao período chuvoso, quando a maioria dos alunos não vão às aulas e ficam prejudicados. "

Durante a entrevista. A esquerda Katia Cunha e a direita Driele Joice. Autoria de Driele Joice. Dezembro de 2018.
Durante a entrevista. A esquerda Katia Cunha e a direita Driele Joice. Autoria de Driele Joice. Dezembro de 2018.

Sabe-se, na comunidade, que há certa frequência na troca de professores da escola. Em relação a esse tópico e ao conhecimento que o corpo docente tem acerca da educação em escolas do campo, Cristiano ressalta que "essa troca frequente estava tendo. Agora, graças a Deus, diminuiu muito, porque o governo fez diversas nomeações. Foram mais de setenta mil nomeações e esta escola foi contemplada. Então nós temos um quadro de servidores efetivos aqui muito bom. Designados que entravam e saíam diminuíram bastante. E sobre os nossos designados aqui, hoje as perspectivas para continuarem em 2019 são muito boas. "

Outro ponto de interesse na conversa foi em torno das diferentes modalidades de educação presentes na escola. Para a supervisora Kátia, "a Educação de Jovens e Adultos também é muito importante nessa comunidade, pois muitos que não tiveram a oportunidade de estudar agora estão tendo a oportunidade de dar continuidade e com perspectiva de futuro". Já em relação à Educação Especial, comenta: "ainda é bem recente e é uma grande conquista para a escola. Ela ainda não funciona dentro do prédio escolar porque não comporta, funciona com a parceria da prefeitura. Falta investimentos do governo para essa educação. "

Questionado sobre o recebimento de benefícios para a escola desde que ela entrou nesse processo de transição, Cristiano afirma que até o momento, "na verdade, não houve nenhum benefício. Infelizmente, porque as leis, as resoluções, vêm prevendo diversos benefícios para o aluno do campo. Dentre eles, o principal é a melhoria na qualidade da merenda. Dos repasses de verbas destinados exclusivamente às escolas do campo, até hoje nós não recebemos nenhum, porque estamos esbarrando na burocracia que o próprio governo coloca."

Outro ponto que o diretor destaca diz respeito a uma mudança que vem ocorrendo em algumas escolas, como a de Padre João Afonso, na oferta de séries iniciais. Na comunidade, a previsão é de não mais oferecer turmas nessa modalidade em 2020: "O governo estadual não quer mais assumir os anos iniciais, então, com isso, a prefeitura é obrigada a assumir, desde que tenha suporte para absorver todo esses alunos. E esse é o nosso caso. A escola Núcleo, da prefeitura, consegue absorver mais e mais a cada ano, então vamos gradativamente perdendo estudantes nos anos iniciais. Em 2019 teremos a nossa última turma de anos iniciais".

O diretor Cristiano complementa suas reflexões reiterando a importância de fazer valer a Resolução SEE/2820/2015, que traz, de modo atualizado, todos os direitos e deveres da escola do campo. Ele aponta que os governantes, tanto em nível federal, estadual e municipal, não legitimam esses direitos, por isso existem tantos empecilhos que dificultam o acesso concreto ao que a escola, em tese, deveria ter. E finaliza relembrando um dos lemas da educação do campo, 'a Educação do Campo é um direito, não uma esmola', para ressaltar que, na prática, os sujeitos do campo têm que buscar conquistar esse direito a cada dia.


Caso queira saber mais sobre a Educação do Campo: marcos normativos clique aqui

Saiba mais sobre a Escola Estadual Padre João Afonso no vídeo abaixo

Veja também

Como alguém que acompanha de perto o projeto 'Olhares do Campo' desde seu início, quando atuava como bolsista ao fim de minha graduação, trago hoje uma retrospectiva de um ano do projeto. Como sou natural de uma comunidade do campo, ao longo de minha vida não sabia exatamente o que era novo em uma notícia, apesar de gostar de...