É IMPORTANTE FALAR DO CAMPO?

por MAYAN MAHARISHI 

Ao olharmos de relance, a pergunta que o título traz pode parecer simples. No fim das contas, porém, faz com que a gente tenha que colocar em discussão várias outras questões nem tão fáceis assim de se responder. Quando pensamos em falar sobre o campo, refletimos também a respeito de que campo estamos falando? Você, que vive uma realidade camponesa ou não, fala sobre o campo no seu dia a dia? E o que fala? Você fala ou ouve dizer? O que estamos ouvindo sobre o campo? Chegamos a ler ou escrever algo sobre o campo como esse local em que cotidianamente vivemos?

O desafio de pensar na importância de se falar sobre o campo é que, justamente, os Campos são muitos! No nosso dia-a-dia, o que é o campo para nós vai depender de onde somos e onde vivemos. Independente dessa relação direta, também temos as narrativas que circulam sobre o campo e sua importância. Não importa de onde se é ou onde se vive, certamente você foi atingido por alguma dessas narrativas.

Se pensarmos nas narrativas cotidianas com que temos contato, de maneira geral, podemos pensar em como elas nos chegam. Provavelmente iremos nos lembrar dos os meios de produção de mídia - jornais, revistas, programas televisivos - em nível nacional, regional e local, por exemplo, bem como nas pessoas que estão a nossa volta e que nos contam coisas. Abrindo uma revista de viagens, o discurso que encontro normalmente é aquele campo bucólico, paradisíaco de coisas boas e bonitas; se ligarmos a tv durante a semana, há a chance de vermos algo sobre assistência técnica, leilão de gado. No noticiário, comum é ter notícias de alguma mazela ou descaso, raras vezes algo positivo ou próximo ao cotidiano vivenciado. Na literatura, há uma diversidade de formas de abordar o campo. Essas formas vão desde a estigmatização do campo em detrimento da cidade, chegando à sua supervalorização enquanto lugar romantizado de calmaria. Na música não é diferente. Nas mídias sindicais veremos o campo muitas vezes como resistência expressiva. Nas produções escolares também há algo ambíguo entre o que chega no campo e o que é produzido no campo enquanto cultura, pensamento etc. Temos várias realidades. Observando o que se produz de informação e quem produz, em que momento são pessoas do campo ou no campo que produzem o que chega até nós?

Eu sei como a mídia trata, como a revista trata, como a literatura trata, mas como as pessoas tratam o campo? As narrativas cotidianas das pessoas que vivem no campo estão contempladas nesses espaços de fala? Nós devemos saber e podemos pensar como nos colocamos como parte disso também. Nesse contexto de várias perspectivas e disputas - sobre o que é o campo e quem fala ou pode falar sobre ele - é que vejo o potencial das narrativas cotidianas para abarcar, a partir do que ocorre no dia-a-dia, temas como diversidade, identidade cultural e diferentes espaços e modos de vida na sociedade. Nessas narrativas, quem vive nesses espaços fala de si. A internet e outros meios de comunicação, que impulsionam a espaços de difusão, permitem que cada vez mais pessoas sejam produtoras de informações e narrativas digitais. Mas a principal, mais antiga narrativa, a qual todos temos e está a nosso alcance todos os dias, somos nós mesmos!

É muito importante produzirmos narrativas a partir das vivências e lugares, pois constituímos memorias individuais e coletivas paralelamente. Se, enquanto sujeitos que vivem esses territórios cotidianamente, nós não o narrarmos também, fazendo nossas escolhas, e não usarmos nossa perspectiva que parte do campo, o alcance de compreensão sobre o que é o campo ficará reduzido, deixando ignorados aspectos desse espaço enquanto cotidiano, enquanto vida ativa. Eu posso olhar pra minha janela e falar de muita coisa: o plantio diversificado que está aqui; a chuva que cai e enche o rio; o som do rio forte quando chove; posso falar do verde bonito; da obra que acontece ao lado; pensar no que acontece na comunidade; falar do forró; do vizinho que coloca música alta no domingo; de política; da paradeira do lugar; do asfalto que parou; do causo que ouvi na venda; do agito do final de semana; das iniciativas legais; da excursão que a escola fez; do moço que brigou; do encontro que teve aqui; das potencialidades locais; da reunião que vai ter; enfim, são tantas possibilidades... Imaginem se sempre o que for para fora, para os outros, for sempre na mesma perspectiva, e não for também gerado por quem realmente está no campo? Vai ser muito reducionista e pouco diverso, então falem do campo. Sem dúvida o campo precisa ser narrado, narrativas do campo, no campo, para o campo!

Por fim, é claro existem narrativas sendo produzidas sobre campo, para o campo e no campo. O que temos que estar mais atentos é de pensar onde elas estão. Este espaço é uma dessas iniciativas, mas existem muitas, podem procurar que vão encontrar muita coisa interessante! O incentivo que quero dar neste texto é para que os próprios camponeses, camponesas e viventes do campo coloquem o campo em pauta, seja na prosa seja no lápis, no causo ou na escola, no chão de terra, nos encontros, no caderninho, na rádio, em casa ou no autofalante da comunidade...

E aí termino te perguntando, ao invés de responder: para você, por que é importante falar do campo?

PS: Paradeira - período de tempo mais longo sem acontecer muita coisa, local parado, sem movimentação. 

Mayan Maharishi: Graduada em Comunicação Social pelo Uni-bh, possui licenciatura em Educação do Campo na área de Linguagens pela UFVJM , tem especialização em Artes Visuais pela EBA-UFMG, e formação como Terapeuta Homeopata pela UFV. É ainda certificada pelo Gaia Education, educação para sustentabilidade e mestre Interdisciplinar em Estudos Rurais também pela UFVJM. Trabalha como gestora e educadora multiplicadora, no Sítio Céu e Terra - Estação de Permacultura, no Alto Vale Jequitinhonha.

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