COMUNIDADE TRADICIONAL GERAIZEIRA DO MOREIRA LUTA EM DEFESA DA ÁGUA, DO CERRADO E DA CULTURA LOCAL

A comunidade do Moreira, localizada no norte de Minas, é reconhecida como 'geraizeira' por manter costumes e tradições locais e luta pela proteção do bioma presente na região.

Por Tatiane Mendes Sousa

A comunidade do Moreira, localizada no município de Rio Pardo de Minas-MG, é reconhecida como 'tradicional geraizeira' pelos moradores e pelo estado de Minas Gerais. Sua existência se dá há mais de 150 anos, com suas raízes familiares, costumes e cultura. Na base familiar e comunitária, cultiva-se um jeito simples de se viver. E, em conjunto, os moradores lutam pelo bem comum e pela defesa de seus direitos. Assim, além dos costumes e da cultura local, características marcantes da comunidade, chama também a atenção a busca pela proteção do bioma local, o cerrado. O termo 'geraizeiro', aliás, deriva do fato de que, na localidade, as regiões de cerrado são conhecidas como "Gerais".

Paisagem da comunidade Geraizeira Moreira. 2019. Tatiane Mendes Sousa.
Paisagem da comunidade Geraizeira Moreira. 2019. Tatiane Mendes Sousa.

Há algum tempo, a comunidade sofre com a falta de água, por conta da devastação do cerrado ocasionada pelo plantio desregrado de eucalipto nas nascentes da região. Algumas delas forneciam água à população e, por conta da degradação resultante da ação de uma empresa plantadora de eucalipto, a maioria já não existe mais. Atualmente, apenas uma dessas nascentes ainda abastece parte da comunidade. Ainda assim, esse fornecimento ocorre apenas até certo período do ano e, para suprir a falta d'água em tempos de estiagem, há um poço artesiano, usado de forma consciente pelos moradores.

As principais tradições culturais da comunidade têm base religiosa, sendo que todos seus moradores são católicos. Os mais idosos recordam que essa característica existe desde o início da comunidade, com práticas como a reza do terço nas casas dos moradores e festas como a de São João, além das comemorações natalinas, que envolvem também a folia de reis. Conta-se, ainda, que, a partir do ano de 1982 a comunidade se organizou como igreja com o coordenador, pastorais e representantes de cada pastoral, com a celebração do culto dominical também realizado na casa das famílias, com o passar do tempo se construiu uma sede e em função da grande quantidade de pessoas devotas a São José, o santo tornou-se padroeiro da igreja e da comunidade, e, a partir daí, deu-se o início aos festejos em seu louvor. Para celebrar a festa do padroeiro, no dia 19 de março, a tradição era rezar o terço e levantar a bandeira de São José. Atualmente, a mesma celebração é feita com novena - geralmente realizada a noite e com a participação das comunidades vizinhas - e missa. A bandeira, por sua vez, é levantada no nono dia. A última celebração se dá no dia 19 de março, que é o décimo dia, e, desse modo, a festa se encerra com a santa missa.

Outra festa marcante é a de São João, realizada no mês de junho. Tradicionalmente, moradores fazem fogueira, levantam bandeira, rezam o terço em suas casas. Geralmente nesses festejos são servidas comidas típicas, como, por exemplo, caldo de mandioca, canjica, bolo de fubá, biscoito enrolado e quentão. Também é costume da comunidade celebrar o Natal, com novenas, presépios e, posteriormente, com as atividades típicas da folia de reis. Com tudo isso, a comunidade segue buscando também na fé forças para continuar lutando em defesa dos 'Gerais' e conservar sua cultura, seu bioma e seus costumes.

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