COMEMORAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA EM PADRE JOÃO AFONSO PROPÕE REFLEXÃO SOBRE CONJUNTURA POLÍTICA NACIONAL

Por Ângela Rita Teixeira

Situada no alto do Vale Jequitinhonha, município de Itamarandiba, está a comunidade de Padre João Afonso, também conhecida como Socorro. A comunidade tem aproximadamente 1500 habitantes e tem como principais atrativos os encantos naturais do entorno, como cachoeiras, serras, rios e paisagens campestres. A comunidade se mescla entre o rural e o urbano e começa a afirmar opções de entretenimento social para públicos diversos como, por exemplo, o trilhão dos motoqueiros, que reúne muitos adeptos todo ano; o rodeio, que aconteceu pela segunda vez em agosto de 2018, tendo agregado diferentes grupos de pessoas no espaço da Associação dos Pequenos Produtores; a cavalgada, que acontece na comunidade e entorno e que todo mês de setembro também segue viagem para romaria a Santa Maria do Suassuí em homenagem a Santo Cônego Lafaiete; as festas religiosas promovidas pelas igrejas locais, tendo destaque as quermesses da igreja católica e uma festa anual promovida pela Assembleia de Deus, que reúne muitos fieis em confraternização. Isso tudo, dentre outras atividades mais particulares, como encontros de família e rodas de viola.


Há, porém, um evento que particularmente se destaca e é esperado pela comunidade todos os anos. Trata-se do desfile cívico da Independência do Brasil, promovido desde o ano de 2006 pelas escolas estadual e municipal da localidade. A atividade tem o diferencial de retratar as especificidades locais e abranger temas globais, atuais e relevantes, sendo essa uma estratégia de chamar a atenção da comunidade e escola para diversos assuntos. A iniciativa se deu com a vinda, nesse mesmo ano, da professora Aparecida Muniz para a região. Ela, que havia trabalhado muitos anos em Conselheiro Mata (Diamantina), no colégio interno Dom Joaquim Silvério de Souza, encontrou em Padre João Afonso muitos ex-alunos de lá, que tinham vivenciado muitos desfiles maravilhosos e realizados com condições mínimas de recursos. Desde essa data, então, a atividade se tornou parte dos eventos escolares.

Pode-se dizer que, atualmente, o desfile já não pertence mais apenas às escolas. Ele é da comunidade e é esperado por ela, tornando-se parte dela, de sua cultura, sobretudo quando a envolve diretamente trazendo além de sujeitos que a constituem, elementos que a representam e contam a sua história, independente do tema proposto a cada ano. Sempre se consegue e se tem por meta valorar a realidade local.

O percurso e a temática de 2018

Em 2018, em meio a um cenário de crise política e social, as discussões em torno da realização do evento já se configuraram como uma reflexão política de grande valia, trazendo para o debate diferentes concepções e pontos de vista entre os envolvidos e explicitando uma insatisfação mais ou menos geral com o contexto nacional. Dentro disso, um fator foi decisivo para que a Escola Estadual Padre João Afonso não desistisse de sair às ruas: a oportunidade de mostrar que a que a comunidade está a par da conjuntura política nacional e se posiciona contra toda forma de corrupção e violência, pois reconhece o fato de que o silêncio é uma forma de consentimento. O tema priorizado para esse ano foi a história de Minas Gerais, procurando mostrar importância de se conhecer e preservar a memória local.

Com o diferencial de marchar em sentido contrário ao habitual, o desfile saiu da praça da Igreja Matriz em direção ao Ginásio Poliesportivo, recém construído na comunidade, local onde se dariam as apresentações dos pelotões, momento ainda muito esperado por várias pessoas. Dona Santila Justino, que na ocasião dos ensaios para o desfile acompanhava seu pai, o Sr. Firmino Oliveira, idoso, sentado na cadeira de rodas, da sacada de sua casa, observando os pelotões passando na rua, confirma essa expectativa: "O meu pai não pode ouvir o som da fanfarra que quer vir olhar. Ele gosta muito de ver o desfile passando."

O discurso de abertura destacou a coragem de quem estava presente, além de chamar a atenção para o fato de que aquele momento, mais que de comemoração, era de reivindicação e de indignação diante de tantos direitos negados. Longe de ser um obstáculo para mostrar as belezas da história do estado, tal posicionamento buscou colocar foco também nas infindas explorações sofridas, desde a dos minérios até a dos antepassados locais.

No início do momento cívico, no ginásio, as estudantes Agnys Oliveira, do 1º ano do Ensino Médio e Séfora Matos, do 8º ano do Ensino Fundamental, declamaram uma releitura de um trecho do Hino Nacional Brasileiro, complementado com uma abordagem sobre o fogo, ambos produzidos pela prof. Ângela Rita Teixeira, numa perspectiva de reivindicação de direitos no contexto atual e de protesto contra o incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Houve também a participação do estudante Danilo Ribeiro, do 2º ano do Ensino Médio, que entrou segurando uma tocha acesa, enquanto o poema foi declamado.

À voz de comando do ex-aluno Reubem Almeida (que também integrou a fanfarra desse ano, junto a outros ex-alunos), foi entoado o Hino Nacional Brasileiro. Em seguida, houve a participação de moradores da comunidade previamente convidados pela escola, que representaram diferentes segmentos da população, ao som da música "Seio de Minas", cantada pela estudante do 1º ano do Ensino Médio, Ellen Matos e acompanhada pela viola de Reubem Almeida. Alguns trouxeram elementos que representavam seu trabalho e/ou profissão ou sua atuação na comunidade. Um dos destaques desse momento foi a folia de Reis, com a presença do Sr. Chico de Matos, um dos mais antigos integrantes desse movimento religioso cultural. O locutor de rodeio da comunidade, Marcelo Ferreira declamou versos sobre o evento, como forma de valorizar o rodeio que tem acontecido anualmente na comunidade, promovido pela Associação dos Pequenos Produtores Rurais de Padre João Afonso, e que tem conseguido integrar diferentes grupos, além de ser uma opção de lazer acessível à comunidade.

A manifestação contou com a participação efetiva dos estudantes da comunidade, dos licenciandos em Educação do Campo (LEC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), pessoas vinculadas a outras instituições e cursos à distância, e ainda bolsistas do programa de iniciação à docência (PIBID) e do Residência Pedagógica, políticas públicas que atendem a Escola Estadual Padre João Afonso. Essa presença maciça, além de constituir atividade extra curricular para muitos que lá estavam, caracteriza-se como uma forma de incentivo para que demais integrantes das comunidades estudem e vejam ser possível o acesso à educação por meio de modalidades conciliáveis com a vida no campo, como os regimes de alternância e a educação à distância, que contribuem para que o jovem permaneça no campo.

A proposta de cada pelotão no desfile

História e Política - Esse pelotão abordou a trajetória de exploração do ouro e dos demais minérios em Minas Gerais. Houve a representação de bandeirantes, escravos, índios, além de outros personagens que compuseram a história da colonização e figuras consideradas ilustres e reconhecidas de Minas Gerais. Representou-se a criação da primeira vila mineira, Mariana, que foi também a primeira capital da capitania das Minas Gerais e compõe o circuito histórico do Estado. No quesito belezas de Minas, expôs a mostra Saberes e Sabores, com artesanatos locais e comidas típicas mineiras, enfatizando a importância dos conhecimentos adquiridos dos antepassados e que se perpetuam, além de tecer a história local e dizendo muito sobre a comunidade. Como forma de protesto, o pelotão trouxe o grito por ações concretas na política e que venham ao encontro das especificidades dos povos, seja no campo ou na cidade, fazendo valer direitos e ajudando na valorização dos sujeitos.

Floristas - Esse pelotão reuniu crianças das duas escolas, que caminharam simbolizando a pureza e a inocência. Trouxeram frutos e flores, elementos da terra, como forma de chamar a atenção e protestar em favor de práticas sustentáveis com o meio ambiente. Traziam também o grito dos povos do campo contra o uso desequilibrado dos defensivos agrícolas, a fim de que não seja comprometida a saúde das diversas gerações e não sejam contaminados nossos solos, nossas águas e nosso ar. É o grito em defesa da agroecologia, de uma vida saudável e da valoração da agricultura familiar.

As crianças da Escola Núcleo trouxeram elementos do folclore: mitos locais e nacionais que perpetuam o imaginário dos povos, reforçando a identidade e o sentimento de pertencimento. O folclore é um elemento da cultura que efetivamente contribui no aprendizado, quando incentiva o vínculo com a história e com a criatividade. É uma forma de ligar passado e futuro e valorar a inteligência e a crença dos povos, conectando diferentes espaços e gerações. Foi feita uma apresentação sobre a lenda do Monstro da Igreja Matriz, conto do folclore local de Itamarandiba, que trouxe crianças caracterizadas e a declamação de quadrinhas que contavam a história.[1]

Fanfarra: Representa, há três anos, um sonho dos jovens locais e uma conquista alcançada. Antes, a marcha nunca podia acontecer no dia sete de setembro, porque precisava contar com a fanfarra de outra cidade, já que a comunidade não tinha. Essa emancipação de possuir uma fanfarra e ter os estudantes da comunidade tocando os instrumentos contribui muito para o empoderamento da comunidade no evento. Em ocasiões anteriores, um visitante mencionou ser muito interessante e bonito ver a ressignificação que a fanfarra levava à comunidade, dando ao som dos instrumentos uma suavidade incomum de se ver. Na realidade atual, o som da fanfarra se propõs a representar um grito para fazer perceber que o campo tem voz e direitos e deseja ser ouvido em suas necessidades.

Educação e Linguagens: Esse pelotão trouxe o protesto contra o descaso com a educação no país e em Minas Gerais e o grito pelo direito a uma educação de qualidade, com recursos, laboratórios, áreas de lazer, material didático específico, melhores salários e condições de trabalho para os servidores da educação, melhorias no transporte escolar e nas condições das estradas, melhorias na merenda escolar e investimentos no Tempo Integral que, sobretudo em Padre João Afonso, é uma política pública de muita importância. Chamou ainda a atenção para a Educação do Campo enquanto um direito garantido nacionalmente por diretrizes legais específicas, e que necessita de investimentos igualmente específicos, dadas as diferentes formas de campo que existem e as necessidades próprias dessa realidade. Estando a escola em fase de transição da educação integralmente urbana para a Educação do Campo, apoiada, sobretudo pela Resolução Estadual 2.820, de dezembro de 2015, foi mais uma oportunidade de lembrar a importância da consolidação dessa e de outras diretrizes, na luta por uma educação que de fato contemple os anseios e as necessidades do campo.

O pelotão destacou que o olhar para o campo requer equidade e que, sendo o campo um território diferente, precisa ser olhado de modo também diferente. Trouxe ainda uma excursão pela trajetória da língua, abordando também o preconceito linguístico, que deve ser combatido e denunciado nas diversas esferas em que ocorre. A ação defendia que estereótipos fossem abolidos e que o respeito prevalecesse entre os povos, sobretudo os tradicionais, com seus costumes e tradições e, tantas vezes, vítimas de preconceitos. Trazendo a ideia de que quem lê, desbrava o mundo, o pelotão finalizou sua apresentação com a homenagem a alguns autores mineiros, ressaltando a importância da educação, do investimento e da leitura como ferramentas de emancipação dos sujeitos.

Vestuário: A partir do entendimento de que se vestir também pode ser um ato político, o pelotão trouxe diferentes vestuários dos séculos XVII ao XXI, retratando diferentes povos em diferentes épocas. Além disso, alertou sobre o fato de que o modo de se vestir de um povo pode revelar muito de sua história, de sua cultura e da forma como se posiciona e se relaciona com o meio em que se está inserido.

Esporte: Como sempre é abordado, esse pelotão trouxe a realidade local, além de ressaltar que estar no campo não inviabiliza contato com outras culturas e realidades. Representando os jogos escolares locais, destacou-se o programa Fair Play, que agrega escolas do campo numa disputa e confraternização entre realidades mais semelhantes. Significativos para as comunidades campesinas, tais jogos são realizados entre escolas do campo do município de Itamarandiba e fortalecem a Educação do Campo ao integrar essas instituições para além do esporte e lazer. O pelotão recordou a participação da primeira narradora feminina de futebol brasileira na Copa do Mundo 2018, Isabelly Morais, bem como clamou por maiores investimentos para as mulheres no esporte e pelo direito de estarem nesse espaço e terem oportunidades iguais. Também foi destaque o Tae Kwon Do, atividade atualmente proporcionada no Tempo Integral da escola e que tem contribuído ativamente para a comunidade como mais uma alternativa contra a violência e a favor do ser humano, além de melhorar visivelmente a autoestima e confiança dos estudantes.


Abaixo assista o vídeo do desfile:

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