APROPRIAÇÃO CULTURAL: AÇÃO INCONSCIENTE OU CRIME?

Por Josiane José Dos Santos e Daliana Dos Reis Silva Oliveira

ARTIGO DE OPINIÃO¹ 


Vivemos em uma sociedade muito preconceituosa e desigual. Apesar desse cenário, existem hoje muitas leis, conquistadas por meio de lutas dos movimentos sociais, que buscam dar voz e justiça aos oprimidos da nossa sociedade. Porém, sabemos que não bastam somente a existência de leis, é preciso também despertar a consciência das pessoas que praticam esses atos de opressões e se julgam corretas, ou que ainda nem se quer sabem que os seus atos estão ferindo alguém ou alguma cultura. Com isso, esses atos podem resultar, por exemplo, em apropriação cultural, tema abordado neste artigo. Conforme a colunista Stephanie Ribeiro, do <geledes.org.br>:

Fonte: <https://pixabay.com/>
Fonte: <https://pixabay.com/>

O processo de apropriação é quando se tira o sentido de alguns símbolos, em especial os religiosos, se desumaniza os indivíduos dessa cultura e se entende que os mesmos símbolos quando usados por eles não têm valor. Alimentasse os estereótipos racistas e, claro, se obtém lucros sobre esses símbolos sem o consentimento dos membros da cultura apropriada. Não falaríamos sobre apropriação cultural se houvesse respeito a todas as culturas da mesma forma, e, claro, se as pessoas entendessem que determinadas culturas e seus símbolos só podem ser usados caso haja consentimento ou ligação com essa cultura. (2017)

Cometemos a apropriação cultural quando usamos a cultura de um outro grupo somente em benefício próprio - como para fins lucrativos - e não damos nenhuma devolutiva para o grupo que está sendo usado. Dessa forma, o opressor consegue benefícios tomando posse de uma cultura que não é sua. No entanto, podemos nos perguntar: por que o oprimido não consegue que sua cultura seja reconhecida ou gere algum lucro? Porque não se associam? As respostas são várias. Primeiramente, a questão nem sempre envolve dinheiro. Em segundo lugar, nem sempre há interesse do poder econômico de se associar a pequenas comunidades, por exemplo.

O site Mega Curioso, em matéria de 2016*, relata uma polêmica envolvendo o uso de turbantes por pessoas brancas. Segundo o site, "o turbante, que é uma cultura africana, quando é usado por pessoa branca é "tudo muito lindo" mas se quando é usado por pessoa negra é descriminada chamada até de macumbeira". Dessa forma, os brancos que se apropriaram da cultura do uso do turbante acabam se beneficiando as custas dessa cultura que é originalmente africana; o que demonstra, dentre outras coisas, o quão racista é a sociedade.

Entre outros exemplos de apropriação cultural, há algumas músicas feitas pelos negros que viraram sucesso nas vozes dos brancos, sendo que poderiam ser sucesso com os verdadeiros criadores se não fosse o preconceito racial. Segundo o site Mega Curioso, na mesma matéria citada: 

Um exemplo clássico de Apropriação Cultural foi o que aconteceu nos EUA nos anos 50, quando os músicos brancos "tomaram emprestado" estilos musicais dos negros. O problema é que, como a comunidade afrodescendente sofria forte opressão por parte da branca, as gravadoras preferiram ter artistas brancos interpretando as canções originalmente compostas por negros. Assim, formas musicais como o rock'n'roll, por exemplo, acabaram sendo associadas a músicos brancos, embora elas tenham sido desenvolvidas a partir de estilos musicais criados pelos negros. E isso teve graves consequências financeiras também, já que muitos dos artistas negros que ajudaram a pavimentar o sucesso do rock jamais receberam um único centavo por sua contribuição. (MEGA CURIOSO, 2016)

Com isso, podemos perceber que a apropriação cultural é imposta muitas vezes pela sociedade, onde os consumidores, muitas vezes, não têm consciência dessa realidade. Todos os exemplos citados são imorais, mesmo que seja difícil enquadrá-los como crimes, pois está se roubando a cultura e fazendo lucro com isso em detrimento de um grupo que fica sempre às margens. Com isso, confirma-se o famoso ditado de que o rico fica cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre.

No entanto, nem sempre a apropriação cultural é intencional ou danosa, pois corremos o risco de cometer atos de apropriação cultural sem saber realmente que estamos desrespeitando alguma cultura. Para melhor entendermos todos esses processos e possamos evitar injustiças, é necessário que este tema da apropriação cultural seja debatido inicialmente nas escolas, pois a partir de lá os estudantes propagarão seus conhecimentos nas comunidades. Apesar de ser desafiador trabalhar com tal tema, é preciso que o professor aproveite brechas para inseri-lo na sala de aula.

A formação do professor também contribui bastante para que ele esteja aberto a trabalhar com a perspectiva de uma educação que dialogue mais com o contexto do estudante; assim como a educação do campo, onde tem-se a preocupação de formar profissionais críticos e comprometidos em atuar em uma educação que faça a diferença e dialogue com a realidade dos estudantes. Contudo, a apropriação cultural está presente em nosso meio e muitas vezes ela passa despercebida por falta de conhecimento sobre o tema, onde há pessoas que a cometem e nem sabem que estão se apropriando de uma cultura inadequadamente.

Portanto, é necessário ter consciência sobre o tema para não cometermos a apropriação cultural e para saber também se não há pessoas se apropriando da nossa cultura. Pois a partir do momento em que tomamos consciência de que determinadas ações que estão sendo exercidas podem ser danosas é que tomamos atitude para lutarmos pelos nossos direitos. Assim como o reconhecimento de que a apropriação cultural é crime.


REFERÊNCIAS

MEGA CURIOSO. 20 fatos para você entender o que é apropriação cultural, 2016. Disponível em: <https://www.megacurioso.com.br/polemica/98787-20-fatos-para-voce-entender-o-que-e-apropriacao-cultural.htm> acesso em 16 de ago. de 2019

RIBEIRO; Stephanie. Afinal o que é apropriação cultural? Geledés, 2017. Disponível em: < https://www.geledes.org.br/stephanie-ribeiro-afinal-o-que-e-apropriacao-cultural/> acesso em 28 de nov. de 2019


¹ ARTIGO DE OPINIÃO produzido a partir das reflexões proporcionadas pela disciplina DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO, ofertada no segundo semestre de 2019 pelo Prof. Carlos Henrique Silva de Castro.