A REALIDADE ESCOLAR CAMPESINA E O EXEMPLO DE PADRE JOÃO AFONSO

Na Escola Estadual Padre João Afonso, em Itamarandiba-MG, notam-se dificuldades que vão desde professores sobrecarregados ao assédio midiático em favor de contextos urbanos, realidades que são comuns a muitas comunidades rurais.

Por Eliude de Sousa Ferreira

Foto: Olhares do Campo
Foto: Olhares do Campo

O universo da educação formal pode ser entendido como ambiente onde acontece, entre outras práticas, a alfabetização e o letramento. Tal educação, no entanto, longe de ser homogênea, materializa-se na prática e no cotidiano na forma de realidades escolares diversas no Brasil. Um exemplo é o que ocorre em Padre João Afonso, comunidade rural do município de Itamarandiba-MG, em escola estadual de mesmo nome. Na escola, não há uma quadra esportiva para as aulas de educação física, o acesso à internet não é fácil, não há variedade de livros na biblioteca, nem laboratórios para as aulas de física, química e biologia. Ou seja, há questões estruturais que interferem nos limites e nas possibilidades de uma ação pedagógica. No entanto, os alunos cobram mais aulas práticas e dinâmicas, mas, do ponto de vista dos professores, com essa estrutura, esse é um objetivo longe de ser alcançado.

Para além da parte estrutural, também pode-se refletir sobre os profissionais ligados à escola e suas condições de trabalho. É possível constatar facilmente a sobrecarga de parte do corpo docente e da supervisão, pois há apenas uma supervisora na instituição que atualmente funciona nos três turnos, com um número grande de alunos. Situações assim segundo Gasparini (2005)[1] podem gerar sobre esforço e acarretar desgaste físico e mental.

Os professores, normalmente, necessitam trabalhar em mais de um turno com turmas cheias e muita burocracia que acabam comprometendo a prática diária. Alguns até dizem que desejam poder preparar aulas diferenciadas a fim de despertar mais interesse dos alunos, mas reclamam da falta de tempo.

A excessiva jornada de trabalho dos professores. Além de comprometer a aprendizagem dos alunos, impossibilita esses profissionais de fazerem novas capacitações. Somado a isso, há uma ausência de capacitações promovidas pelo governo para os professores que atuam em escolas do campo. Além de as instituições não concederem licenças facilmente, os cursos estão concentrados nos grandes centros com poucas oportunidades nas localidades, a distância ou nas férias. Essas capacitações contribuiriam para melhor planejamento e execução das aulas. No entanto, o professor muitas vezes é colocado diante de situações que não são contempladas pela sua formação, como constatam Oliveira (2004) e Noronha (2001)[2]: "(...) diante das variadas funções que a escola pública assume, muitas vezes esses profissionais são obrigados a desempenhar funções de agente público, assistente social, enfermeiro, psicólogo, entre outras."

Nem todas as escolas do campo ou públicas são iguais, mas há relatos diversos de que há situações mais precárias do que o exemplo citado. Mesmo sem generalizar, esse pode ser um ponto de partida para se pensar mais amplamente os aspectos da realidade das escolas do campo no Brasil, pois o contexto histórico da educação não afetou apenas essa comunidade, mas todas as outras nas esferas municipais, estaduais e federais; além de ter contribuído para a realidade da carreira de professor.

Para além das políticas e posturas gerais, em questões que envolvem a identidade dos estudantes e os territórios, o campo é ainda mais prejudicado, acredito que, sobretudo, pela dicotomia criada entre campo e cidade, na qual o campo é diminuído em vários aspectos. A mídia influencia muito nesse sentido, o que leva a maioria dos jovens camponeses a migrar para a cidade antes mesmo de concluir o Ensino Médio em busca de uma "vida melhor". Como afirma Durand (2015)[3], "(...) o assédio sugestivo que a mídia faz sobre as facilidades e oportunidades urbanas de lazer, educação e trabalho, impulsionam o jovem a deixar mais cedo a propriedade."

Em uma breve conclusão, vê-se que a falta de investimento dificulta a educação e o trabalho para as pessoas que vivem em comunidades campesina. Resta-nos questionar as razões reais que levam a essa falta de investimento.

Comunidade Padre João Afonso. Foto Olhares do Campo.
Comunidade Padre João Afonso. Foto Olhares do Campo.

[1] GASPARINI, Sandra Maria; BARRETO, Sandhi Maria; ASSUNÇÃO, Ada Ávila. O professor, as condições de trabalho e os efeitos sobre sua saúde. Educação e pesquisa, v. 31, n. 2, p. 189-199, 2005. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/ep/v31n2/a03v31n2. Acesso em 07/05/2020.

[2] OLIVEIRA, Dalila Andrade. A reestruturação do trabalho docente: precarização e flexibilização. Educação & Sociedade, v. 25, n. 89, p. 1127-1144, 2004. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/es/v25n89/22614. Acesso em 07/05/2020.

[3] DURAND, O. C. S.; ALVES, S. C. Juventude do campo na busca da escolarização/qualificação: uma experiência em Santa Catarina. In: Leão, G; ANTUNES. ROCHA, M. I. (Orgs) Juventudes do campo. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.