A FEIRA LIVRE EM SÃO GONÇALO: PARA ALÉM DO ACESSO AO ALIMENTO, UM ESPAÇO DE SOCIABILIDADE E AFETO

"Na feira ninguém está só" (Fernando Braudel)

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por Maycon Souza Ferreira*

Em São Gonçalo do Rio das Pedras, região do Serro-MG, é realizada quinzenalmente a atividade de feira livre denominada carinhosamente de 'A Feira de Todos Nós'. Trata-se de um espaço de sociabilidade onde se trocam saberes e que passou a fazer parte do cotidiano da comunidade. Quem conhece a feira de São Gonçalo consegue notar que ela fortalece as relações e os vínculos entre as pessoas (agricultores familiares, artesãos, consumidores, entre outros), bem como a socialização dos sujeitos envolvidos nesse processo. A geografia das disposições entre as barracas na feira livre permite que sejam realizadas trocas de saberes entre os próprios produtores e, até mesmo, entre produtores e consumidores. Os próprios consumidores realizam ali varias trocas de receitas e modos de preparos dos produtos comercializados nas barracas. Sendo assim, mesmo não sendo uma atividade ligada a atividades formais de escolarização, o fortalecimento de um processo de educação popular e educação no campo se faz ainda mais presente na comunidade a partir dessas experiências vivenciadas no ambiente da feira livre.

A feira livre se encaixa no que Milton Santos caracteriza de 'circuito inferior da economia', dentro do qual se parte de tecnologias e de saberes e fazeres do povo. Dentro dessa lógica, a feira, assim, é realizada pelas mãos dos próprios produtores, sem o auxilio de maquinários, como é o caso da Feira de Todos Nós. Atendendo principalmente ao público local e turistas que frequentam a região, essa feira vem garantindo, inclusive, uma forma de economia alternativa para os sujeitos envolvidos.

São Gonçalo está passando por um processo de hibridação em seus aspectos sociais e culturais. Por conta de sua história, famílias que moram há muito tempo na região convivem com muitas pessoas que vieram de outros lugares para se estabelecerem por ali. Assim, aparecem situações inusitadas entre as pessoas do lugar e os classificados como 'de fora'. Tal processo cria mudanças em alguns costumes da comunidade no dia a dia. Por mais que os sujeitos inseridos nessa dinâmica não estejam necessariamente abandonando seus modos de vida, a feira possibilita que seus saberes e práticas sejam constantemente atualizados a partir de vivências nesse espaço de convívio onde também se faz a vida.

Estou seguro em dizer que a Feira de Todos Nós, no distrito de São Gonçalo do Rio das Pedras, através da simpatia, do carisma, da honestidade e das habilidades que possuem os participantes, irá proporcionar cada vez mais uma construção de laços sociais, sendo um espaço de sociabilidade onde não se trocam apenas artesanatos e alimentos, mas também conhecimentos, simbolismos, memórias e afetos. Além de todas essas virtudes, as cores, os sons e os cheiros ali presentes aguçam o lado fraterno dos sujeitos que - de uma forma ou de outra - contribuem para que a feira seja uma experiência fecunda e farta. Tudo isso possibilita que os frutos possam ser colhidos pelos produtores e comerciantes, estendendo essa experiência às diversas pessoas que visitam e visitarão a feira. A partir dessa experiência concreta de São Gonçalo do Rio das Pedras e, tendo em mente as feiras livres como espaços de manifestações culturais, sociais e de importância para o debate político entre os sujeitos envolvidos, fica nítido o quanto se fazem necessárias políticas públicas que considerem a relevância da feira para a economia popular e solidária.

* Maycon de Souza Ferreira é natural de Ipatinga (MG) e morador de Milho Verde (MG) desde janeiro de 2014. Formado em Licenciatura Plena em Geografia pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais - UNILESTE e mestrando do programa de pós-graduação em Estudos Rurais-UFVJM, lecionou a disciplina de Geografia na Escola Estadual Mestra Virginia Reis, em São Gonçalo do Rio das Pedras (MG) entre os anos 2014 e 2018, onde também atuou como professor supervisor do PIBID-Diversidade da LEC-UFVJM. Atualmente trabalha como professor de geografia no CESEC-Serro.

Referências

BRAUDEL, Fernand. O jogo das trocas. Civilização material, economia e capitalismo: século XV-XVIII. São Paulo, Martins Fontes, 1996.

SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979. 

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