A ESCOLA TEM UM PAPEL IMPORTANTE NA PREVENÇÃO DA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA

ARTIGO DE OPINIÃO*

A escola tem um papel importante na prevenção da gravidez na adolescência, pois cabe a ela trabalhar temas voltados à saúde e à sexualidade, de modo que construam conhecimentos sobre esses temas tão presentes na vida de todos, além de um acompanhamento contínuo da vida dos estudantes que deveria ser feito por psicólogos, tendo em vista aprovação recente de lei que busca garantir psicólogos nas escolas.

Por Adriana das Dores Silva, Alane dos Santos Baldaia e Alina dos Santos Rocha

Fonte: <https://br.freepik.com/>

A gravidez na adolescência é um dos motivos que levam as adolescentes a abandonarem os estudos. Em grande medida, essa evasão se dá devido às limitações impostas pela gestação, a necessidade de cuidar do bebê nos primeiros meses de vida e, muitas vezes, a necessidade de trabalhar. Com todas essas novas demandas, parece natural que essas jovens encontrem muitas dificuldades para retornarem os estudos.

Nesse cenário, a escola tem um papel importante na prevenção da gravidez na adolescência, pois cabe a ela trabalhar temas voltados à saúde e à sexualidade, de modo que construam conhecimentos sobre esses temas tão presentes na vida de todos, além de um acompanhamento contínuo da vida dos estudantes que deveria ser feito por psicólogos, tendo em vista aprovação recente de lei que busca garantir psicólogos nas escolas. Para entender os vieses e perspectivas desse tema no contexto de nossa comunidade, a comunidade quilombola do Paiol, realizamos uma entrevista com a senhora Adriana, que atua como enfermeira e professora na localidade.

Segundo a entrevistada, que participou de formações com o tema saúde da família e trabalhou com cursos técnicos em parceria com o PRONATEC e a Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), a escola tem um papel de grande importância na prevenção da gravidez na adolescência que, muitas vezes, leva o aluno ao abandono da escola. Sua opinião baseia-se, sobretudo, à sua experiência com o público dos cursos, formado por adolescentes da periferia, em grande maioria. O objetivo dos cursos que trabalhou sempre foi oferecer assistência e conhecimento a jovens em situação de rua e diminuir a gravidez na adolescência.

Além dessa experiência, como professora de biologia e ciências, áreas que trabalham com a reprodução humana, suas aulas acabam englobando as questões relacionadas à sexualidade como infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e gravidez indesejada. Paralelo a isso, sua escola também atua com trabalhos realizados durante o ano letivo e, com maior destaque, na Semana Pela Vida. Nessa semana, toda a comunidade escolar se envolve juntamente às famílias para debater, refletir e construir conhecimentos sobre educação, saúde e sexualidade por meio de palestras, distribuição de panfletos e oficinas todos trabalhos relacionados a esses temas.

É a partir desse local e experiências que a professora Adriana afirma que a escola tem um papel importante na vida do adolescente, uma vez que costuma ser um local de4 construção de conhecimentos, compartilhamento de informações e costuma ser um território importante na vida da adolescente grávida. Além desses fatores, há o já citado fato de que a gravidez precoce é uma das causas da evasão escolar.

Em conversas com as adolescentes da comunidade quilombola Paiol, entre 10 aos 18 anos, elas relatam o quanto são importantes as palestras que acontecem na escola. Uma estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da UFVJM, relatou que engravidou aos 16 anos, ainda na educação básica; mas que, com o apoio da escola e seus funcionários, não abandonou os estudos. Conta ainda que, a partir da sua gravidez e de outras adolescentes, a escola passou a abordar com mais frequência o tema. Com isso, vem diminuindo o número de grávidas na sua comunidade.

Soma-se a esses relatos, a posição de estudiosos como Dadoorian (2003, p.5):

O abandono dos estudos não se dava pela rejeição do colégio à situação da gravidez, mas, sim, por sentimentos ambivalentes das jovens, de vergonha, como que para negar que exercem a sua sexualidade, ou de satisfação pela gravidez, visto que algumas delas relatavam que só queriam "curtir" o filho. A esses fatores emocionais, se junta a falta de estímulo dos pais, que valorizam mais o trabalho, através do qual a jovem poderá ajudar na renda familiar, do que os estudos das filhas. O fato de não concluírem a escolarização traz dificuldades para alcançarem a independência financeira e profissional.

A atitude da escola frente a essa situação varia bastante. Em geral, as escolas públicas convivem melhor com essa situação do que as escolas privadas.

Um outro ponto que há de se tocar é a questão da culpa. Dizer que os pais são os únicos responsáveis na prevenção da gravidez na adolescência não é verídico; pois, devido algumas crenças e até desconhecimento, típicos do meio cultural que se vive e, muitos pais não sabem abordar o assunto com os filhos. Motivados pelo senso comum, normalmente construído em base cultural religiosa e conservadora, muitos chegam a crer que tocar no assunto pode estimular a vida sexual precoce dos filhos.

Ou seja: há de se educar pais e filhos.

Nesse sentido, é de suma importância a escola e as famílias trabalharem juntas para prevenir a gravidez na adolescência e as ISTs. Segundo Gurgel (apud VILELA, 2019, p. 2), "(...) tanto os pais quanto os professores precisam estar preparados para responderem corretamente às perguntas das crianças. Sem um cuidado específico para lidar com o tema, o ensino fica comprometido".

Entendemos, assim, que a escola e as famílias são fundamentais na vida dos alunos e, portanto, na discussão dos temas de relevância social, tal como saúde e sexualidade, principalmente quando chegam na adolescência, quando a maioria começa sua vida sexual. Adicionalmente, há de se tratar desses temas em todos os meios de comunicação possíveis - tv, internet, rádio, outdoors e afins - para quebrar os tabus que acabam potencializando nossos problemas, a exemplo da gravidez na adolescência, ISTs e evasão escolar.


REFERÊNCIAS

DADOORIAN, Diana. Gravidez na adolescência: um novo olhar: Escola e gravidez na adolescência. Psicologia: ciência e profissão, v. 23, n. 1, Brasília, 2003. Disponível em: <https://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932003000100012>. Acesso em: 09/01/2020.

GURGEL, Larissa. Educação sexual: responsabilidade da escola ou da família?, 2019. Disponível em: <https://www.lumosjuridico.com.br/2019/07/03/educacao-sexual-responsabilidade-da-escola-ou-da-familia/>. Acesso em: 09/01/2020.


*ARTIGO DE OPINIÃO produzido a partir das reflexões proporcionadas pela disciplina DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO, ofertada no segundo semestre de 2019 pelo Prof. Carlos Henrique Silva de Castro.

Veja também

Sobre o relacionamento abusivo
Com um cordel quero comentar
Coisas terríveis que iludem
E fazem acreditar
Atrocidades vividas
Comparadas a amar