A DITADURA DA BELEZA DA MULHER

Estamos vivendo uma sociedade onde o ser humano tornou-se escravo de uma beleza estereotipada, principalmente a figura feminina. 

ARTIGO DE OPINIÃO*

Por Jociene Gomes dos Santos e Tatiane Rodrigues de Souza

Fonte: <pixabay.com>
Fonte: <pixabay.com>

A mídia e os meios de comunicação possuem grande influência em certas padronizações, a exemplo da beleza que nem é notada pelas pessoas. Os meios de comunicação em massa adentram as nossas casas e invadem as nossas vidas dizendo que o que eles oferecem é o que de fato necessitamos. Se não nos adequarmos ao padrão estipulado e julgado como o correto, logo seremos estigmatizados.

A partir dessas considerações, focamos aqui em como as mulheres reagem diante de tantas informações e tantos produtos oferecidos. Em uma sociedade que se diz democrática, as mulheres tornam-se cada vez mais cativas da indústria de beleza, sobretudo a juventude. Com as mídias cada vez mais presentes com seus padrões ditos perfeitos, as pessoas têm se tornado cada vez mais insatisfeitas consigo mesmas. Com isso, o número de jovens e adolescentes que buscam por procedimentos estéticos e cirurgias plásticas tem crescido demasiadamente. As mortes também.

Diante da propaganda massiva, muitas pessoas fazem de tudo para se enquadrarem no padrão, sem pensar nas consequências. São vários questionamentos que as mulheres, induzidas ao consumismo, pouco indagam. Segundo estatísticas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)[1], a procura por procedimentos estéticos não cirúrgicos cresceu, durante o ano de 2016, 390% e os procedimentos cirúrgicos crescem em média de 23% ao ano.

Os dados são preocupantes como podemos observar. Isso também acontece com o uso de medicamentos que prometem substituir procedimentos estéticos como os emagrecedores. De acordo com pesquisa realizada por uma subcomissão do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID/Ministério da Saúde):

O consumo de medicamentos tipo anfetaminas no Brasil saltou de 7,7 toneladas em 1988 para 23,6 toneladas em 1992 (dados divulgados no jornal Folha de S. Paulo, 20/4/94, p. 4). Os medicamentos para emagrecimento utilizam anfetaminas e ansiolíticos e são substâncias que provocam dependência. O uso desses fármacos está associado a alterações das funções cardíacas e da função renal; a distúrbios hormonais, sobretudo os da tireoide, além de distúrbios gástricos e neurológicos. (SERRA; SANTOS, 2003, p. 699.)[2]

A loucura da busca pelo padrão estético ideal traz grandes consequências, como alteração nas funções cardíacas e renais citados por Serra e Santos (2003). Além disso, para alcançar seus objetivos, muitas vezes irreais, acabam se submetendo a procedimentos que muitas vezes não dão certo, causando diversos transtornos.

Para além da saúde física, a questão psicológica também é de extrema importância. Diante dos padrões impostos, o preconceito é latente para muitos tipos longe do que propagam como ideal.

A mulher que é gordinha, por exemplo, sofre gordofobia e, como consequência, depressão. Elas são vistas como pouco saudáveis e fora de forma, sendo que na verdade apenas não se encaixam no padrão estipulado como o correto. Diante de muita luta e conscientização, muitas mulheres têm se empoderado, aceitando-se e se assumido do jeito que são. A mídia e o capital parecem querer um pouco desse novo mercado e acabam apoiando, em alguma medida longe do ideal, esse movimento de autoaceitação e empoderamento. Assim, hoje já é possível encontrar lojas específicas para as mulheres de corpos maiores e desfiles plus size.

O racismo também é um fator que afeta diretamente os conceitos de beleza. Assim, as mulheres negras, desde sempre, vêm lutando para assumir seus espaços e suas identidades. Nesse movimento, notamos movimentos de empoderamento preocupados em valorizar a diversidade dos cabelos afro da e pele negra. E através de grandes movimentos, vêm ocupado alguns espaços em várias partes do mundo. A exemplo do que citamos no caso das gordas, a mídia e o capital também já abre algum espaço para as negras.

Ser gorda, magra, loira, morena, preta, alta ou pequena são características que são estereotipadas para induzirem as pessoas a manterem uma forma física e estética parecida/igual a todos, de acordo com o que a indústria oferece. Gente feliz compra menos. No entanto, é preciso mais discussão sobre esse tema dentro das nossas comunidades, na universidade, nas escolas do campo e da cidade, pois essa é uma situação muito comum a todos, tanto nos grandes centros como nos pequenos interiores. É preciso dar voz para que essas pessoas se expressarem, notem suas belezas, conheçam o jogo da indústria, se empoderem a partir dos debates e discussões, alternativamente às meras imposições das classes majoritárias trazidas pela mídia convencional.

É preciso olhar com criticidade para o nosso contexto de atuação, na vida social e profissional, para encontrarmos formas de motivar o empoderamento feminino e a autoaceitação. Para isso, é muito importante pensar em estratégias que mostrem que o padrão de beleza é injusto e não é nada bonito; que devemos ser aquilo que nos faz bem, que não nos reprima, mas nos liberta.


Jociene Gomes dos Santos e Tatiane Rodrigues de Souza são estudantes de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) pela UFVJM e este texto é resultado dos debates da disciplina Diversidade e Educação, ofertada no segundo semestre de 2019.  

[1] VIDALE, Giulia. Estética: Procura por procedimentos não cirúrgicos aumenta 390%. Disponível em: <https://www2.cirurgiaplastica.org.br/2017/10/27/estetica-procura-por-procedimentos-nao-cirurgicos-aumenta-390/>. Acesso em 08/04/2020.

[2] SERRA, Giane Moliari Amaral; SANTOS, Elizabeth Moreira dos. Saúde e mídia na construção da obesidade e do corpo perfeito. Ciência & Saúde Coletiva, v. 8, p. 691-701, 2003.